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terça-feira, 19 de junho de 2018

Pesquisa relaciona agrotóxicos a puberdade precoce e má-formação congênita

Reportagem republicada do JORNAL FLORIPA - (Waleska Santiago)
Marcia Xavier, filha do líder assassinado José Maria do Tomé, acompanha com preocupação os problemas de saúde da filha, hoje com 5 anos

Marcia Xavier, filha do líder assassinado José Maria do Tomé, acompanha com preocupação os problemas de saúde da filha, hoje com 5 anos

A professora Antônia Lucí Silva Oliveira resistiu em reconhecer que o corpo da filha não estava normal. Aos seis meses de idade, ela começou a notar o crescimento das mamas da menina. Com 1 ano e 6 meses, quando o desenvolvimento era "avançado e inegável" aos olhos da mãe, um ultrassom diagnosticou telarca prematura, a primeira fase do desenvolvimento das mamas. "Para me acalmar, o médico disse que estava recebendo muitos casos como o dela da nossa região", lembra Lucí.

O mesmo diagnóstico foi dado a pelo menos outras duas meninas da mesma comunidade, com cerca de 2.500 habitantes, no interior do Ceará. O povoado fica na Chapada do Apodi, onde aviões e tratores pulverizam agrotóxicos em plantações de banana, melão e outras frutas para exportação.

Além das meninas com puberdade precoce, a mesma comunidade teve ainda oito registros de fetos com má formação congênita, casos que foram relacionados à alta exposição dessas famílias aos agrotóxicos por nova pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

sábado, 18 de março de 2017

Pesticidas matam 200 mil pessoas por intoxicação aguda todo ano, alertam especialistas

Cerca de 90% das mortes ocorreram em países em desenvolvimento, onde as regulamentações de saúde, de segurança e de proteção ao meio ambiente são frágeis. Dois especialistas em direitos humanos da ONU pediram novo tratado global para regulamentar e eliminar gradualmente o uso de pesticidas perigosos na agricultura e avançar em práticas agrícolas sustentáveis.

Foto: Akarsh Simha/Flickr/CC


Dois especialistas em direitos humanos da ONU pediram nessa semana (7) um novo tratado global para regulamentar e eliminar gradualmente o uso de pesticidas perigosos na agricultura e avançar em práticas agrícolas sustentáveis.

De acordo com a relatora especial da ONU sobre o direito à alimentação, Hilal Elver, e o especialista das Nações Unidas para os direitos humanos e substâncias e resíduos perigosos, Baskut Tuncak, os pesticidas são responsáveis por 200 mil mortes por intoxicação aguda a cada ano.

Eles apontaram que cerca de 90% das mortes ocorreram em países em desenvolvimento – onde as regulamentações de saúde, de segurança e de proteção ao meio ambiente são frágeis.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

'Bomba-relógio' de suicídios: Como uma mescla de agrotóxicos, depressão e dívidas abala grupo de agricultores gaúchos

Paula Sperb BBC BRASIL

Simone Rovadoski ficou um ano sem plantar depois da morte do marido


A família de agricultores acordou cedo e tomou chimarrão naquela manhã quente de 21 de dezembro de 2013. A mãe fez bolinhos para o lanche e iniciou o preparo da lentilha para o almoço.

Mas, quando Simone Rovadoski, 39 anos, saiu da casa para ajudar o marido José Dell Osbel, 44, no cultivo dos 48 mil pés de tabaco da família, encontrou-o morto.

"Não pude evitar que as crianças vissem. Foi um horror", relembra Simone sobre o suicídio do marido, em Gramado Xavier, a 156 km de Porto Alegre. "Ajuda a salvar meu pai, ajuda!", pedia o filho do casal, na época com 13 anos, para curiosos que se aproximavam.

Osbel passou a integrar as estatísticas que fazem do Rio Grande do Sul o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes.

A taxa é praticamente o dobro da brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde) e próxima da taxa mundial (11,4 por 100 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde).

Agrotóxicos e depressão


'Bomba-relógio' de suicídios: Como uma mescla de agrotóxicos, depressão e dívidas abala grupo de agricultores gaúchos

Paula Sperb BBC BRASIL

Simone Rovadoski ficou um ano sem plantar depois da morte do marido


A família de agricultores acordou cedo e tomou chimarrão naquela manhã quente de 21 de dezembro de 2013. A mãe fez bolinhos para o lanche e iniciou o preparo da lentilha para o almoço.

Mas, quando Simone Rovadoski, 39 anos, saiu da casa para ajudar o marido José Dell Osbel, 44, no cultivo dos 48 mil pés de tabaco da família, encontrou-o morto.

"Não pude evitar que as crianças vissem. Foi um horror", relembra Simone sobre o suicídio do marido, em Gramado Xavier, a 156 km de Porto Alegre. "Ajuda a salvar meu pai, ajuda!", pedia o filho do casal, na época com 13 anos, para curiosos que se aproximavam.

Osbel passou a integrar as estatísticas que fazem do Rio Grande do Sul o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes.

A taxa é praticamente o dobro da brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde) e próxima da taxa mundial (11,4 por 100 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde).

Agrotóxicos e depressão


'Bomba-relógio' de suicídios: Como uma mescla de agrotóxicos, depressão e dívidas abala grupo de agricultores gaúchos

Paula Sperb BBC BRASIL

Simone Rovadoski ficou um ano sem plantar depois da morte do marido


A família de agricultores acordou cedo e tomou chimarrão naquela manhã quente de 21 de dezembro de 2013. A mãe fez bolinhos para o lanche e iniciou o preparo da lentilha para o almoço.

Mas, quando Simone Rovadoski, 39 anos, saiu da casa para ajudar o marido José Dell Osbel, 44, no cultivo dos 48 mil pés de tabaco da família, encontrou-o morto.

"Não pude evitar que as crianças vissem. Foi um horror", relembra Simone sobre o suicídio do marido, em Gramado Xavier, a 156 km de Porto Alegre. "Ajuda a salvar meu pai, ajuda!", pedia o filho do casal, na época com 13 anos, para curiosos que se aproximavam.

Osbel passou a integrar as estatísticas que fazem do Rio Grande do Sul o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes.

A taxa é praticamente o dobro da brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde) e próxima da taxa mundial (11,4 por 100 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde).

Agrotóxicos e depressão


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Alto índice de agricultores gaúchos com câncer põe agrotóxicos em xeque

BBC Brasil
Falta da proteção necessária é um dos principais problemas
Falta da proteção necessária é um dos principais problemas

PAULA SPERB, na FSP
BBC BRASIL
O agricultor Atílio Marques da Rosa, 76, andava de moto quando sentiu uma forte tontura e caiu na frente de casa em Braga, uma cidadezinha de menos de 4.000 habitantes no interior do Rio Grande do Sul. "A tontura reapareceu depois, e os exames mostraram o câncer", conta o filho Osmar Marques da Rosa, 55, que também é agricultor.
Seu Atílio foi diagnosticado há um ano com um tumor na cabeça, localizado entre o cérebro e os olhos. Por causa da doença, já não trabalha em sua pequena propriedade, na qual produzia milho e mandioca. Para ele, o câncer tem origem: o contato com agrotóxicos, produtos químicos usados para matar insetos ou plantas dos quais o Brasil é líder mundial em consumo desde 2009.
"Meu pai acusa muito esse negócio de veneno. Ele nunca usou, mas as fazendas vizinhas sempre pulverizavam a soja com avião e tudo", diz Osmar.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Pesquisadora da USP monta mapa da contaminação por agrotóxico no Brasil

Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.

Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.

Além disso, Larissa leva em conta os registros do Ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Profissão Repórter mostra o impacto do uso de agrotóxicos para a saúde

Região agrícola no Ceará tem índice de câncer 38% maior que no Brasil.

Pesquisas também relacionam agrotóxicos à depressão e má formação.

O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos. Os efeitos disso podem ser vistos na saúde da população.

No Brasil, 70% dos alimentos in natura estão contaminados por agrotóxicos.
Espírito Santo é o estado com o maior número de intoxicações do Brasil.

Pesquisas relacionam a exposição aos agrotóxicos com o aumento nos casos de depressão, pânico e distúrbios alimentares.

Veja o vídeo com a reportagem - AQUI


Dos 50 agrotóxicos mais usados no país, 15 são proibidos na Europa.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crianças estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos no Brasil

Dados inéditos da USP indicam que entre 2007 e 2014 foram notificadas 2.150 intoxicações somente na faixa etária de 0 a 14 anos de idade; número pode ser 50 vezes maior.




São Paulo – Crianças e adolescentes estão entre as principais vítimas dos efeitos nocivos dos agrotóxicos. Um estudo do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), com base em dados do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mostra que entre 2007 e 2014 foram notificadas em todo o país 2.150 intoxicações somente na faixa etária entre 0 e 14 anos de idade. O dado, alarmante, não reflete o real, que pode ser 50 vezes maior. Isso porque de cada 50 casos de intoxicação por esses venenos, apenas um é notificado no serviço de saúde.

Os dados, inéditos, foram apresentados pela professora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) durante o seminário Impacto dos Agrotóxicos na Vida e no Trabalho, realizado quarta-feira (2) na Câmara dos Vereadores de São Paulo.

Promovido pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, entre outros parceiros que lutam pelo banimento agrotóxicos e das sementes transgênicas no Brasil, o evento integra a programação da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que está divulgando a atualização de seu Dossiê Impactos dos Agrotóxicos na Saúde.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Uso de inseticida pode ter matado 240 no AC; 15 estão na 'fila da morte'

Arlete, que era costureira, está há 28 anos  cuidando do marido Sebastião que não fala e não anda  (Foto: Tácita Muniz/G1)
Arlete abandonou o ofício de costureira e cuida, há 28 anos, do marido Sebastião que não fala e não anda (Foto: Tácita Muniz/G1)
  Tácita Muniz Do G1 AC

Noticia retirada do site : G1 ACRE

"Tenho certeza que não escapo dessa, já preparei os meus filhos". A frase sai arrastada, entre os dentes de Raimundo Gomes da Silva, que aos 82 anos integra a chamada 'lista da morte', formada por ex-servidores da extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), que tiveram contato direto com o pesticida Diclorodifeniltricloroetano (DDT), usado para conter o mosquito da malária na região amazônica nas décadas de 70 a 90, no Acre. (Veja galeria de fotos)

O aposentado desenvolveu problemas no coração, rins e tumores. No Acre, o extinto órgão do governo federal possuía cerca de 540 funcionários, dos quais 240 morreram. Até este mês, 15 estão na lista da morte somente em Rio Branco. Sem ter a intoxicação reconhecida pelo poder público, o levantamento é feito pela Associação DDT e Luta Pela Vida, que estima que o número de ex-agentes 'condenados à morte' deve ser ainda maior.

Veja também:

"Comecei a contabilizar as mortes em 2000, quando começamos a perceber que homens que trabalhavam com a gente desenvolviam doenças crônicas. Mas, são 22 municípios no Acre, com certeza o número de ex-servidores que estão em casa só esperando a morte chegar deve ser maior do que 15, pois esse número que temos, da espera, é referente só a Rio Branco", explica o presidente da associação, Aldo Moura, de 63 anos.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Intoxicação por agrotóxicos ainda faz vítimas no campo

Marcos Zanutto
O médico me disse que ou eu parava com a atividade ou morria de intoxicação", lembra o ex-produtor rural Expedito de Souza
 
Expedito Pereira de Souza é ex-produtor rural. Durante anos se dedicou à produção de tomate, pepino e uva no distrito de Guaravera, zona sul de Londrina. Mas há 18 anos foi forçado a deixar a propriedade aos cuidados de familiares para tratar da saúde.

Souza foi uma das vítimas de intoxicação por agroquímicos, produtos que eram aplicados para livrar a lavoura de pragas e doenças.

O último levantamento realizado em 2011 pelo Sistema Nacional de Informações Toxico Farmacológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aponta que 5.075 pessoas foram intoxicadas com defensivos agrícolas naquele ano, representando 4,79% do total de casos de intoxicação registrados no Brasil.

 O número é ligeiramente menor se comparado ao levantamento de 2001, quando o volume de casos por intoxicação com agrotóxicos no País chegou a 5.384. Ainda que menor, preocupa as autoridades de saúde.

O número de intoxicações por agroquímicos nas lavouras brasileiras pode ser bem maior, já que os dados da Fiocruz só computam casos de pessoas que recebem atendimento médico imediato, ou seja, quando a intoxicação é aguda. Casos crônicos não são computados.

"É difícil conseguir ver os efeitos crônicos de exposição ao agrotóxico durante 20, 30 anos", revela Luiz Claudio Meirelles, pesquisador da área de saúde pública do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fiocruz. Segundo ele, as pessoas não têm consciência de que uma doença pode aparecer ocasionada pela exposição a esses produtos. Estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que de cada 100 casos de intoxicação por agroquímicos ocorridos nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, apenas em torno de 5% são notificados.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Proibidos, falsificados e perigosos


Enquanto isso, segue no congresso, projeto que  facilita registro de novos agrotóxicos  do senador Ruben Figueiró (PSDB-Mato Grosso do Sul). O projeto de Lei PLS 209/13 fixa em 180 dias o prazo máximo para a liberação de novos defensivos agrícolas no mercado, projeto esse, que é para atender uma das principais queixas das empresas de agrotóxicos. Nos países desenvolvidos, esse prazo chega, a 4 anos.

Abaixo, temos Reportagem especial de Zero Hora apresenta os números dos agrotóxicos no Rio Grande do Sul e os riscos que eles podem trazer à saúde dos consumidores gaúchos.

Como podemos ver, o mercado de agrotóxicos, segue totalmente descontrolados ,onde a todo momento a lei é driblada e a falta de regulamentação, facilita o comércio irregular, e milhares de intoxicações são registradas anualmente e resíduos, cada vez mais presentes nos alimentos, e no meio ambiente como todo, e além do mais, esse descontrole, faz surgir mais pragas, que por sua vez, exigirá mais agrotóxicos.

Esse blog, também reproduziu, a série Série Viúvas do Veneno 1 - Silêncio e dor se multiplicam nos campos brasileiros, publicado pelo Diário do Nordeste, que mostra que em outras regiões do Brasil, a realidade não é diferente e pode ser até pior.


O  Governo Brasileiro, ao invés de dar uma resposta a sociedade,  em relação ao uso abusivo de agrotóxicos,  como podemos observar esta fazendo o contrário, esta sensível ao reclame das empresas de agrotóxicos.



 
Segundo maior consumidor de agrotóxicos do mundo, o Brasil elevou em 650% suas taxas de importação dos produtos químicos nos últimos dez anos.


Caio Cigana


(Reprodução/reprodução)

Em alta

Crescimento desproporcional

Em cinco anos, venda de defensivos aumentou três vezes mais que área plantada no país, segundo IBGE

A venda descontrolada de agrotóxicos ganhou na internet um novo canal para driblar a lei, dificultando a fiscalização e ampliando o risco à saúde de consumidores e agricultores. A novidade agrava um cenário em que uso exagerado dos químicos na lavoura - o consumo cresceu muito acima da área plantada -, contaminação da água e dificuldade de identificar eventuais excessos de veneno nos alimentos que chegam à mesa se combinam para elevar o perigo escondido nos alimentos.

Zero Hora flagrou a venda ilegal de agrotóxicos pela internet. A reportagem negociou a compra e a entrega de três produtos com comercialização e uso proibidos no Estado, apresentando-se como agricultor ou dono de agropecuária em e-mails e ligações telefônicas gravadas. Questionado sobre o risco de a carga de ser apreendida, o vendedor, que se identifica como Mauricio, não mostra receio com a venda ilegal:

Veja Também:
(Ricardo Duarte/Agencia RBS)


(Reprodução/Zero Hora)

Vilões da mesa

Os três alimentos com a maior incidência de resíduos de agrotóxicos


- Se eles (a fiscalização) travar (sic), o pessoal dá um jeito de recolher a mercadoria, mas se passar entrega tranquilo - garante.

Sem regras, a negociação online de defensivos aumenta a brecha para irregularidades que vão de crimes ambientais a infrações mais graves, como derrame de produtos falsificados, contrabandeados e roubados. No Estado, a venda pela internet permite que agricultores e donos de lojas negociem herbicidas e inseticidas proibidos por terem sido banidos em seus países de origem devido ao alto teor tóxico e ao perigo à saúde e ao ambiente. Gramoxone 200 e Gramocil são feitos à base de paraquat, princípio ativo que, apenas entre 2005 e 2011, causou 165 envenenamentos e 35 mortes conforme registros do Centro de Informações Toxicológicas (CIT) do Estado.

Outro produto proibido é o Mertin 400. Mesmo alertados de que o produto era proibido no Rio Grande do Sul, vendedores confirmam a entrega no Estado. A multinacional Syngenta, fabricante dos três produtos, tenta liberar esses agrotóxicos na Justiça gaúcha.

Flagrante detecta produtos ilegais e sem origem

No dia 14 de novembro, a partir das investigações de ZH, fiscais da Secretaria da Agricultura deram uma batida em uma agropecuária de Venâncio Aires citada por um dos vendedores como cliente antigo. Além de o estabelecimento sequer ter licença para vender agrotóxicos, foram encontrados produtos proibidos, sem registro no Ministério da Agricultura (Mapa) e sem origem comprovada.


(Ronaldo Bernardi/Agencia RBS)
Operação de Secretaria da Agricultura encontrou agrotóxicos proibidos, sem registro no Ministério da Agricultura

chefe da divisão de fiscalização de agrotóxicos do Mapa, Álvaro Ávila, ressalva que a comercialização de defensivos pela internet, apesar de não ter regulamentação, não é proibida - desde que obedeça a lei. O problema é que, mesmo quando fungicidas, herbicidas e inseticidas são legais, em regra as vendas são feitas por empresas sem licença para comercializar venenos agrícolas.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Série Viúvas do Veneno3 - Da morte silenciosa aos gritos nas evidências e saudades de Vanderlei





Dando continuidade a série - Viúvas do Veneno, esse blog traz a reportagem principal publicado no terceiro dia.

Parabenizamos ao Jornal do Nordeste e seu repórter MELQUÍADES JÚNIOR, pela ousadia de fazer essa série e nos mostrar o que existe por de trás de cada número ... uma vida, uma família.

Para quem não viu a primeira reportagem Viúvas do Veneno, CLIQUE AQUI. e a segunda reportagem AQUI.

Limoeiro do Norte. Ressentir a dor talvez seja a comprovação de que ela nunca saiu dali. Como esquecer é ato vão, Gerlene Silva tenta superar a dor da perda de Vanderlei. Ela não acredita em superação, mas na possibilidade de conviver melhor com a dor da separação eterna. E a dor aumenta todas as vezes em que o filho, Davi, pergunta "cadê meu pai?".

Gerlene Silva tornou-se depressiva e evita falar com o filho sobre a morte do pai. 
Foto: Waleska Santiago

Desde que Vanderlei Matos foi para o céu de Davi, Gerlene é tensa, depressiva. Não quer viver de pesar. Luta contra o luto. E, nesta batalha, ganha o nervosismo. Perde 35 quilos, mas ganha amigos a apoiar neste momento de pesar que já dura três anos. Perde um pedaço de sua própria identidade: aquela história de que existe a outra metade é verdade para a viúva, estranha alcunha para quem só tem 23 anos de idade.

Vanderlei é seu primeiro e único amor. Cresceram juntos nas ruelas da Cidade Alta, bairro mais populoso de Limoeiro do Norte. Tiveram Davi e, depois, carteira assinada para garantir o sustento.

Produtos químicos

Vanderlei manipula fertilizantes e agrotóxicos. Separa os produtos de acordo com a especificação e quantidades indicadas na guia para repassá-los ao setor de mistura. Também é sua tarefa guardar o estoque restante do produto. É assim por três anos, sempre no período da noite, desde 2005. Mas com o tempo, algumas coisas vão mudando no trabalhador rural.

"Vanderlei, tá acontecendo alguma coisa?". Gerlene não pergunta para saber, ela já sabe, só quer a sinceridade. O esposo está com uma cor diferente, se ele concorda que é estranho, pode ser um sinal de que ele também está preocupado e, portanto, aceita ajuda. "Ele sempre foi uma pessoa calada, não comentava nada com ninguém": "não, eu tô bem, não tem cor esquisita não", afirma.

Sintomas

Depois, a situação vai piorando e não é possível negar nem para si mesmo: rachaduras nos dedos, sangramento pelo nariz e ressecamento dos lábios. As primeiras consultas são com o médico da empresa. Vanderlei sente tontura, fraqueza nas pernas. Nem parece o rapaz de porte atlético que quando chega do trabalho tranca-se no quarto a fazer exercícios aeróbicos e levantamento de peso. Está sempre em forma para jogar futebol, sua diversão predileta. Fora o trabalho, suas duas "saídas" são para o campo jogar e para os passeios com a família no fim de semana.

Testemunha

"Macho, vá pra casa". É o agricultor Anaildo Silva tentando fazer alguma coisa pelo amigo, vizinho e colega de trabalho. Hoje, é testemunha das atividades exercidas por Vanderlei, bem como das crises doentias que ele tem e não conta em casa e nem fora dela. "Eu pensei que ia melhorar, mas foi cada vez piorando", lembra Gerlene. E ninguém sabe o que é. Daí a razão do "não, meu filho, vá mais pra lá, vá" que ele diz toda vez que o menino se aproxima.

Só perde o medo de contaminar quando, após exames realizados no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza, percebe-se a grave discrasia sanguínea, uma séria alteração venosa e, ainda mais, o comprometimento das funções do fígado, exigindo um transplante com urgência.

Com filho de pouco mais de 1 ano de idade, Gerlene não pode sair da cidade. Acompanha por telefone os 23 dias de internação hospitalar de Vanderlei. Dá entrada no dia 7 de novembro de 2008. O dia 30 do mesmo mês, especificamente à 1h40, é uma data para se esquecer. Melhor, superar, ou, ao menos, conviver com a realidade da dor, que, se não sair, ao menos doa menos.

Evidências

A morte de Vanderlei Matos causa medo em dezenas de homens do bairro Antônio Holanda, a Cidade Alta, em Limoeiro do Norte. O lugar até hoje fornece boa parte dos trabalhadores rurais para a região. Até então, os relatos comuns de enjoos e fraquezas não eram associados à exposição diária aos agrotóxicos, menos ainda que isso pudesse causar a morte. A família não tem dúvidas de que o veneno contaminou o homem.

"Eu só quero que não aconteça com outras pessoas o que aconteceu com meu marido. Eu queria que tudo isso se resolvesse em paz. E tão ruim, depois dele morrer ainda ver gente passando por esses problemas", afirma a jovem viúva.

A Universidade Federal do Ceará (UFC) realizava desde 2006 o "Estudo Epidemiológico da População da Região do Baixo Jaguaribe Exposta à Contaminação Ambiental em Área de Uso de Agrotóxicos". É neste contexto que conhecem o caso de Vanderlei.

Diante das especulações sobre a causa mortis, três médicos especialistas decidem investigar: Maria Terezinha, doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP); Alberto Novaes, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e José Milton de Castro Lima, Gastro-Hepatologista e doutor em Gastroenterologia pela Escola Paulista de Medicina. O diagnóstico: morte por hepatopatia grave induzida por substâncias tóxicas.

Resultado parecido vem de investigação paralela de Ayla Maria Cavalcante Sales, perita médica do Ministério do Trabalho. O caso ainda aguarda resposta da Justiça do Trabalho.

Seu céu

A jovem viúva Gerlene não esperava que acontecesse, muito menos tão cedo, mas, como a mãe, sente a dor de ser viúva. Dona Maria do Socorro Silva dos Santos preenche, junto com seu filho, Davi, uma parte do vazio deixado por Vanderlei. Hoje, a família é formada pelas duas viúvas, Davi e o retrato de um homem que nunca sairá da parede da sala.

Ela nos conta que espera que o filho cresça um pouco mais para entender que, antes de ir para o céu, "seu pai trabalhava com o veneno. Aí, ele não se deu bem e morreu", de uma forma silenciosa e crônica, como ocorreu com outros trabalhadores abordados nesta série especial de Reportagens.


Veja também:





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Série Viúvas do Veneno 2 - O destino cruel de Rosália, Aldo, Maycon, Pedro, Sueli...



Dando continuidade a série - Viúvas do Veneno, esse blog traz a reportagem principal publicado no segundo dia.

Parabenizamos ao Jornal do Nordeste e seu repórter MELQUÍADES JÚNIOR, pela ousadia de fazer essa série e nos mostrar o que existe por de trás de cada número ... uma vida, uma família.

Para quem não viu a primeira reportagem Viúvas do Veneno, CLIQUE AQUI.

No final desse artigo tem vários links que faz parte da série.

Cubati (PB). Na casa de Marizaldo, tudo lembra Rosália. Coisa de menina que pega uma caneta e escreve o próprio nome num pedaço de papel ou de parede e vai espalhando a sua existência pela casa. Na janela azul que dá para a rua sem nome, um pedaço de giz escreve Rosália, Aldo, Maycon, Pedro. Uma família existe ali. O último nome, ainda não colocado, seria de Samuel, mas da última vez que Rosália sai de casa, para não voltar, o garoto só existe em sua barriga.


Sem Rosália, Aldo cuida dos três filhos com a ajuda da sogra e da irmã. Foto: Waleska Santiago

Hoje, do lado de dentro, são várias fotos que espalham a ausência de Rosália pela casa. Em Cubati, agreste Paraibano, a reportagem encontrou um viúvo do veneno. Aldo (ninguém o chama Marizaldo) perdeu Rosália, que deixou três filhos sem mãe. Sueli perdeu a filha e, no fim das contas, todos saíram perdendo.

Com 28 anos, Aldo planta tomate perto de casa, é o responsável pela aplicação do coquetel de venenos. Aprendeu quando trabalhou nas grandes plantações à beira do açude Boqueirão, que leva o grosso da produção para Campina Grande e João Pessoa.


Veneno na roupa

Rosália, de 23 anos, é a responsável pela lavagem da roupa de Aldo quando volta da aplicação do veneno. "Ela colocava na bacia pra enxaguar, a água ficava verde que você precisava ver". Na prática, Rosália toca diretamente o que Aldo tenta não tocar. A mulher morre e o marido não se perdoa.

Vez por outra, ela ajuda na plantação de tomate. Diminui o cansaço do marido e ainda garante que ele não tarde a chegar. A última vez que vai, já está com o bucho apontando para frente.

Nas consultas de pré-natal, Rosália é alertada pelo médico de que não tenha contato com os venenos que o marido aplica, já que mulher grávida fica com o sistema imunológico baixo.

No sexto mês de gestação, as manchas no corpo e o sangramento não parecem mais normais para o período. Rosália vai para o hospital público de Soledade, município maior que Cubati. De lá, a enviam para Campina Grande, porque já se constata a necessidade de transfusão sanguínea. Mas só encontram tratamento para ela no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Filgueira (Imip), em Recife (PE).

Rosália sofre sem dor. A Leucemia é silenciosa até quando já domina o corpo. Tem, sim, uma dor ainda maior do que seria a do câncer mesmo se ele resolvesse gritar em suas veias: a saudade. De Aldo, o esposo e primeiro namorado, de Maycon e Pedro, os filhos. Ainda mais de Samuel, o único a estar com ela no hospital porque vai de carona em seu útero e por mais um mês fica.


Os filhos

Quando vai crescendo, as roupas de Maycon ficam para Pedrinho, três anos mais novo. Com Samuel, o caçula, seria o mesmo. E é, porque Samuel sobrevive. Quando Rosália começa a perder ainda mais sangue já tem um mês de hospital. Os médicos fazem cesária de emergência.

É quando o paradoxo bate à porta da família: a alegria do nascimento e a tristeza da doença. O menino nasce e Rosália não para de sangrar. A comemoração congela-se no tempo, coagula-se. "Era uma pessoa que não se maldizia com nada. Só chorava mesmo com saudade dos meninos", conta dona Sueli, mãe de Rosália.

Com a doença de Rosália, Aldo desiste da plantação de tomate. Mais que isso, não come mais tomate e desiste da agricultura. O campo em que produzia para o "Rei do Tomate" está abandonado e quando começar a funcionar de novo não será pelas mãos dele. As mãos que, com outras, plantava dez mil pés de tomates e colhia seis mil caixas do vegetal por mês, o que lhe rendia cerca de R$ 800.

"Acontecer logo com ela? Porque a gente cuidava disso, do veneno. Eu acho que se tivessem descoberto antes, tinham resolvido. Ela estava viva hoje". Mas nem Aldo passa ileso ao contato com o veneno. Antes da aplicação, ele que faz o coquetel, a mistura de vários venenos.

"Era veneno de tudo no mundo. Aí mexia e colocava um motorzinho nele e saia com as mangueiras pulverizando, de uma ponta a outra. Dependendo do campo, era o dia todinho. Tinha dias que eu andava quase gelando, os ossos doendo, quase sem poder andar, com febre. Depois que saí de lá eu não tive mais nada", conta.

Fome

Com um cateter enfiado na garganta - não bastasse a leucemia, ainda tem complicações nas vias respiratórias, Rosália tem um sonho, naquele momento o maior: ir a um restaurante. Arroz, feijão, farofa e carne foram perdidos do seu paladar em mais de um mês só comendo um ensopado do hospital. "Um dia eu provei... A coisa mais horrível do mundo", lembra Sueli.

Rosália passa o dia vendo as fotos de Maycon e Pedrinho. Passa a mão como se acariciasse os rostos. Pergunta se estão comendo, fazendo o dever de casa. E Samuel? Tão pequeno e indefeso, e privado do conforto da mãe. Vê Rosália, e é visto por ela, apenas por duas vezes em que ela dá de mamar. Tão fraca, mas forte para alimentar outra vida.

O bebê recebe alta na mesma semana em que nasce. Sem a mãe, Samuel ganha outras duas: a própria avó materna, dona Sueli, e a tia Joelma, irmã de Aldo. Para as outras duas crianças, o pai está lá, mas, com a mãe, é diferente. E é diferente todas as noites. Rosália contava história para Maycon. O que não vinha da cabeça de mãe, era pelos livros ilustrados da estante. O mundo do garoto fica menos fantástico sem Rosália. "De vez em quando ele me chama, mas não sei contar história não. Como não dorme só, ele fica mais eu assistindo TV até pegar no sono, aí levo pra cama", conta Aldo.

No leito hospitalar, Rosália não dorme sem a mãe por perto. O sono das duas vem para dar uma pausa no pesadelo.


Força

"Não sei de onde tirei tanta força, você ver um filho seu ali, se acabando e não poder fazer nada". Pior do que estar com a filha doente no hospital é não estar lá no lugar dela. Mesmo com os dias dedicados a Rosália, Sueli precisa aparecer por casa, saber dos outros filhos e de Damião, o marido. Dá um abraço na filha. "Mamãe, não demore". "Demoro não". Quando volta, Sueli vê nos olhos de Rosália "a maior alegria do mundo".

De volta para Cubati, o telefone toca e dona Sueli vibra. É do hospital. Tiraram Rosália da UTI. Ela está pior, mas é a forma encontrada para chamar um familiar sem causar pânico.

"Ela pelejava pra falar, eu via nos olhos dela, mas não conseguia. Apontou para a sonda. Eu vi e disse tô vendo, minha filha, mas não se preocupe não que eles tão botando sangue". Como quem sai para tomar água, Sueli vai para no corredor hospitalar e desaba em lágrimas.

A causa

"O que acabou com ela foi o veneno, acabou a medula dela. Eu acredito no médico, no que eles disseram. Primeiro suspeitaram que poderia ser picada de um besouro, ai viram que não era. Suspeitaram um monte de coisa, quando veio o resultado do exame que levaram pra São Paulo", conta a mãe.

PARA APROFUNDAR VEJA:



O tempo não se repõe. E mesmo que o fizesse, e fosse como as transfusões de sangue que pouco efeito surtem em Rosália, ganhar horas pode significar dose extra de saudade e sofrimento.

Uma manhã não foi como outras. Rosália amanhece esperta, que depois Sueli entende como a "melhora da morte". O olhar está mais vivo. Com o dedo, aponta para o próprio rosto. Quer um beijo. A cama é alta, mas Sueli dá um jeito. Rosália retribui passeando levemente a mão no rosto da mãe. De sublime, o momento é doloroso. "Eu saí porque não aguentei. Ela jogou um beijo pra mim. Eu disse fique aí que eu já venho". Enquanto chora novamente no corredor, Sueli guarda a cena do beijo, derradeira entre mãe e filha.

Samuel está com oito meses e segue cuidado pela vó Sueli e a tia Joelma. Maycon ficou mais calado e não pergunta uma só vez pela mãe, mas revela a saudade em todas as noites em que gostaria de dormir ouvindo histórias.

Pedrinho pergunta pela mãe todos os dias. De vez em quando olha para o céu e pergunta: "mamãe não vai descer não?". E, quando Aldo chega do centro da cidade, solta: "não trouxe a mamãe não?".

Rosália se foi há oito meses. Renata, outra filha de dona Sueli, está grávida de uma menina no oitavo mês de gestação. Para a família, é Rosália voltando em forma de esperança, sentimento transformador nessa família paraibana.

MELQUÍADES JÚNIOR
REPÓRTER


Veja também:











Para aprofundar:





domingo, 18 de agosto de 2013

Brasil registra o aumento de mortes por agrotóxicos




Em 2010, 171 pessoas morreram intoxicadas por venenos de uso agrícola no País. Nordeste lidera casos

Campina Grande (PB). Poucos produtos conseguem quase dobrar a venda, na escala mundial, em um curto espaço de tempo. Os agrotóxicos tiveram crescimento de mercado mundial de 93% nos últimos dez anos. Não no Brasil, que teve avanço maior que 190%. Um mercado nacional que em 2002 representava R$ 2,5 bilhões chega, passados dez anos, à cifra de R$ 8,9 bilhões. Os estudos do impacto desses produtos não acompanham a própria liberação do comércio e, menos ainda, a informação sobre o uso. O resultado: mais pessoas estão morrendo por agrotóxico agrícola.

No Brasil, foram 4.789 casos registrados de intoxicação por esses produtos em 2010. No período, foram 86.700 casos totais de intoxicação sob diversos agentes, como agrotóxicos, animais peçonhentos, raticidas e dormissanitários. Os óbitos causados por veneno representam, por exemplo, 10% das mortes por trânsito nas estradas brasileiras; e o Brasil é o quarto país onde mais se morre no trânsito.

Mesmo os casos notificados levam muito tempo para chegar ao Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox). Por isso, o ano de 2010 é o mais recente. Somente quando todos os Estados repassam as informações um novo ano fica disponível para consulta. Assim, a reportagem buscou números mais atualizados nas gerências regionais dos Centros de Assistência Toxicológica (Ceatox) de alguns Estados brasileiros, conforme indica o infográfico ao lado.

A Região Sudeste apresentou, ainda em 2010, o maior número de casos de intoxicação: 2.145, seguida das regiões Sul (898), Centro-Oeste (808) e Nordeste (823). O Norte apontou 115 casos. Mas, no ranking de mortes, o Nordeste está em primeiro lugar. Foram 82 óbitos de um total de 171 em todo o País em 2010. Isso representa 47,9% de todas as mortes por agrotóxicos registradas no período. O total representa duas vezes mais que as mortes por medicamentos (67) no mesmo ano.

A média é acompanhada no levantamento de mortes entre 2001 e 2010. O Nordeste apresenta 37,7% das mortes, seguido de Sudeste (24,52%), Sul (18,40%), Centro-Oeste (17,24%) e Norte (2,65%).

São 17 categorias de circunstâncias apontadas no levantamento: acidente individual, acidente coletivo, acidente ambiental, ocupacional, uso terapêutico, prescrição médica inadequada, erro de administração, automedicação, abstinência, abuso, ingestão de alimentos, tentativa de suicídio, tentativa de aborto, violência/homicídio, uso indevido, ignorada e outra.

Suicídio

A facilidade com que se pode comprar o agrotóxico é um dos principais fatores para que estes produtos sejam bastante usados por quem tenta contra a própria vida. Em 2010, tentativa de suicídio representou 44,5% dos casos de intoxicação por agrotóxico agrícola e nada menos que 85% das mortes. A maior parcela desses suicídios se dá em zonas rurais, onde é mais fácil o contato com o veneno, cada vez mais abundante.

No perfil circunstancial, a maioria por pessoas que não têm contato com a atividade agrícola, mas sabem onde adquirir, de forma facilitada, o agrotóxico. Em linhas gerais, não fazem parte da estatística de intoxicação porque sofrem os trabalhadores expostos ao veneno.

Mas os números não dizem tudo. De acordo com a biofarmacêutica e doutora em Toxicologia Sayonara Fook, diretora do Ceatox de Campina Grande (PB), dentre as várias doenças causadas na intoxicação crônica por agrotóxico está a depressão. Alguns venenos atingem diretamente o sistema nervoso. "A exposição ao produto pode gerar problemas crônicos e há, sim, casos de agricultores que cometem suicídio com o próprio produto que aplicavam".

É o caso de transtornos psíquicos causados pela exposição contínua aos agrotóxicos do tipo organofosforados, usados em grande escala em diversas lavouras. Este inseticida é um dos mais comuns no mundo. Aparentemente fornecem menor risco ao meio ambiente, por sua rápida decomposição após a aplicação. No entanto, é muito tóxico para ser humano e animais. Um exemplo comum é o metamidofós, encontrado na água para consumo doméstico em comunidades da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte, no Ceará.

Como o metamidofós, outros produtos organofosforados estão em fase de reavaliação pela Anvisa. São conhecidas mais de 35 mil formulações desse composto, sendo a primeira usada o tetraetilpirofosfato, em 1854. Depois em 1932 como agente de guerra (matando por asfixia em câmaras de gás).

Subnotificação

Os dados que chegam aos centros de toxicologia ainda são precários. A maior parte nem chega. O Ministério da Saúde aponta que, para cada caso de intoxicação registrado, outros 40 não são notificados.

"Existe uma série de dificuldades para reconhecer o problema, principalmente se existe intoxicação crônica. Podemos ter resíduos de agrotóxicos, seja pela exposição ou pelos alimentos, mas dificilmente associamos a alguma doença que adquirimos. Queremos garantir que até 2015 todas as secretarias municipais de saúde tenham um protocolo para casos de intoxicação", afirma Guilherme Franco Netto, diretor do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde.




Veja também:

Série Viúvas do Veneno 1 - Silêncio e dor se multiplicam nos campos brasileiros


Este blog estará reproduzindo, a  série viúvas do Veneno, feita e publicada pelo Diário do Nordeste , a qual parabenizamos pelas matérias e coragem para trazer esse tema ao debate, porque esta é a unica forma de mudar essa realidade.


Nesta série contamos a história de homens e mulheres vítimas da intoxicação por agrotóxicos na atividade agrícola e o que diz a política, a economia e a ciência

Para garantir a colheita e aumentar a produtividade, passou-se a usar o agrotóxico, que alguns chamam de defensivo químico ou agroquímico. O veneno usado para matar pragas nas lavouras chega com força ao ser humano e ao meio ambiente quanto maior e mais indiscriminado é o seu uso. Mortes silenciosas passam a ocorrer nos campos agrícolas brasileiros e fora deles. Assim foi com Valderi, Wanderlei, Rosália, Liberato e Antônio. Estes são alguns entre milhares de nomes registrados pelo Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox) com óbitos por agrotóxico agrícola.

São trabalhadores rurais do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Bahia, que conhecemos após percorrer quase 6 mil quilômetros. Os seus últimos anos de vida são narrados pelas esposas, as "viúvas do veneno". Entre as vítimas incluímos Rosália, que lavava diariamente as roupas do marido sujas de veneno. Morreu de leucemia. Deixou três filhos e Marizaldo, o viúvo desta série.

Maria da Conceição cuidou dos últimos dez anos de vida de Valderi. Mas os cinco últimos valeram por outros dez. O agricultor foi perdendo partes do corpo. A reportagem conheceu Valderi logo após ele perder os primeiros dedos do pé, em 2005. Fizemos também a sua última foto em vida, em 2008.

Esta série especial não começa agora, mas há sete anos, em Limoeiro do Norte, cidade de José Maria Filho, uma das fontes exclusivas entre os moradores e lideranças na Chapada do Apodi. Sabíamos, dois anos antes, das ameaças de morte que sofria por denunciar a pulverização aérea onde hoje está um dos maiores polos fruticultores do Nordeste. Mesmo assim, ele insistia em não se calar. Quando foi assassinado, a comunidade de Zé Maria não se calou e os cientistas constataram as doenças causadas pelo veneno denunciado. A partir de amanhã, e até domingo, acontece a Semana Zé Maria do Tomé. Serão dias de protestos pela causa ambiental.
O Brasil é, há mais de quatro anos, o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Somente em 2011 circularam cerca de US$ 8,9 bilhões no comércio de veneno, dominado por nove empresas fabricantes que não concorrem entre si, pois, para cada cultura, uma delas produz um ou vários venenos específicos.

Em todo o País, foram confirmadas 171 mortes por agrotóxico agrícola somente em 2010, ano mais recente levantado pelo Sistema Nacional de Informações Toxicológicas. Mas a subnotificação é um dos grandes imbróglios neste setor. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada caso notificado, existem outros 40 que não são.

E de quem é a culpa? Do modelo agrícola, da desinformação do trabalhador, do lobby dos fabricantes de venenos, da venda a qualquer custo? Desde a "revolução verde", há 50 anos, não se falou tanto em agrotóxicos no Brasil quanto nestas primeiras décadas do século XXI. "Delicado", "espinhoso", "polêmico", "necessário" são alguns adjetivos dados ao assunto, não importa qual opinião se tenha. No meio disso tudo, um fato: mais pessoas estão morrendo, o solo e a água estão com maiores teores de produtos químicos. Tudo de uma forma silenciosa, só definida com o tempo.

Estivemos também em Campinas (SP) reunidos com autoridades do agronegócio e representantes do segmento fabricante de agrotóxicos. Enquanto tudo isso, o mundo corre para garantir a segurança alimentar para 9 bilhões de pessoas até 2050. Há respostas de cunho político, econômico, social ou científico. Todas elas são consideradas nesta série especial inédita de hoje até o próximo dia 20 de abril.


CONFIRA MAIS MATÉRIAS, QUE FAZEM PARTE, DA SÉRIE VIÚVAS DO AGROTÓXICO 1:





VEJA TAMBÉM:






segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Os agrotóxicos, o novo holocausto invisível

"Anualmente, no mundo, cerca de 3 milhões de pessoas se intoxicam pelo uso de agrotóxicos. Mais de 220 mil morrem. Isto significa 660 mortos por dia, 25 mortes por hora. O programa de vigilância epidemiológica dos Ministérios da Saúde e da Organização Panamericana de Saúde de sete países da América Central, estima que cada ano 400.000 pessoas se intoxicam com venenos", escreve Graciela Cristina Gómez, argentina, advogada ambientalista e escritora, em artigo publicado no sítio Ecoportal, 03-12-2012. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

“Se soubesse que o mundo acabaria amanhã, assim mesmo, ainda hoje, plantaria uma árvore” (Martin Luther King Jr.).

Vinte anos após a catástrofe de Bophal, na Índia, mais de 100.000 pessoas ainda sofrem doenças crônicas relacionadas à contaminação causada pelo vazamento.

Esta data [03 de dezembro] foi estabelecida pela organização PAN International (Pesticide Action Network) para recordar as mais de 16.000 pessoas mortas no desastre ocorrido em 1984 pelo vazamento de 40 toneladas de gás tóxico metil isocianato, químico utilizado na elaboração de um pesticida da Corporación Union Carbide, adquirida em 2001 pela Dow Chimical. Só nos três primeiros dias morreram 8.000 pessoas. (1)

Em 2000, a Eveready, da mesma empresa (Union Carbide Argentina), foi denunciada de enterrar clandestinamente pilhas alcalinas não aptas para a comercialização. O depósito de resíduos tóxicos se encontrava em uma fazenda no quilômetro 752 da estrada 9, na cidade de Jesús María, província de Córdoba. A fábrica funcionou nesse lugar entre 1965 e 1987, mas desde 1994 funciona ali a empresa brasileira Iochpe-Maxion. Esta empresa fez um acordo com a Eveready, atualmente sob licença da empresa Ralston Purina Argentina S.A., para limpar o terreno e transladar os materiais tóxicos. A companhia Ailinco começou a remover os resíduos industriais no final de setembro para transladá-los em caminhões supostamente acondicionados para um local apropriado para ali serem enterrados ou tratados, localizado em Zárate, Buenos Aires. (2)

Anualmente, no mundo, cerca de 3 milhões de pessoas se intoxicam pelo uso de agrotóxicos. Mais de 220 mil morrem. Isto significa 660 mortos por dia, 25 mortes por hora. O programa de vigilância epidemiológica dos Ministérios da Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde de sete países da América Central, estima que anualmente 400.000 pessoas se intoxicam com venenos.

A ONU considera que a taxa de intoxicações nos países do sul poderá ser 13 vezes maior do que nos países industrializados, razão pela qual declarou os agrotóxicos como um dos maiores problemas em âmbito mundial. Em 1991, calcula-se que 25 milhões de trabalhadores agrícolas tenham sofrido alguma intoxicação com pesticidas e que estes seriam responsáveis por 437.000 casos de câncer e de 400.000 mortes involuntárias. (3)

Do campo de guerra para o campo semeado

Os agrotóxicos não foram inventados para a agricultura e não foram solicitados pelos agricultores; são um produto de guerra. E hoje, quando vemos os problemas ocasionados pelos agrotóxicos, temos que dizer o seu nome certo: Veneno – Arma Química – Agrotóxico.

Na Primeira Guerra Mundial a Alemanha foi bloqueada e os aliados proibiram a importação do salitre chileno e outros adubos nitrogenados que poderiam ser utilizados na fabricação de explosivos. Quando a guerra terminou os alemães tinham um enorme estoque de nitratos, que já ninguém mais queria. A indústria química os reciclou e foram impostos aos agricultores. Assim nasceram os adubos nitrogenados. A agricultura foi uma espécie de lixeira para a indústria da guerra.

Fruto da guerra, os agrotóxicos foram criados para matar o homem, para destruir suas plantações e não para benefício da humanidade. Quando a primeira bomba atômica explodiu, no verão de 1945, viajava na direção do Japão um barco americano com uma carga de fitocidas, então declarados como LN 8, e LN 14, suficiente para destruir 30% das plantações. Mais tarde, na guerra do Vietnã, estes mesmos venenos, com outros nomes, como agente laranja, serviram para a destruição de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de florestas e plantações.

Também o DDT, usado para matar insetos, surgiu na guerra. Para combater a malária. Depois da guerra, novamente a agricultura serviu para canalizar as enormes quantidades armazenadas e para manter em funcionamento as grandes capacidades produtivas que haviam sido montadas. (4)

Mais de 500.000 toneladas de inseticidas obsoletos, proibidos ou que caducaram, se acumulam em quase todos os países em desenvolvimento, supondo uma grave ameaça para a saúde de milhões de pessoas e para o meio ambiente. (5)

Nicarágua: Em um engenho, foram necessárias 986 pessoas mortas por efeitos do agrotóxico Nemagón para que a Assembleia Nacional da Nicarágua começasse a agir. Os resultados são dramáticos. Segundo cálculos, morreram 1.383 trabalhadores e nos últimos anos há uma média de 46 mortes mensais. (6)

Argentina: Em Misiones, cinco de cada mil crianças nascem com mielomeningocele, uma deformação do sistema nervoso central. Em Misiones, estima-se que cerca de 13% da sua população tem alguma incapacidade. “Quando vemos o orçamento que a Monsanto tem para a América Latina, que tem sua grande agência aqui em Posadas, 30 bilhões de dólares são o que ela investe em agrotóxicos para que alguns poucos se enriqueçam e para que todos os demais sejamos incapacitados”. (7)

Ver também os relatórios por província do Grupo de Reflexão Rural, o relatório Pachamama (Ecos de Romang) e As derivações do caso Portillo (jornal El Día, Gualeguaychú), entre outros, que provocam vergonha e impotência em nosso país.

Paraguai: É o terceiro maior exportador e quarto maior produtor mundial de soja. 85% das sementes plantadas pertencem à Monsanto. O Ministério da Saúde registrou 430 casos de envenenamento e morte entre 1990 e 2000.

Neste contexto, talvez o caso mais ressonante no Paraguai seja a morte do menino Silvino Talavera, ocorrida em janeiro de 2003 e que originou o primeiro julgamento de produtores, condenados a apenas dois anos de prisão. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) assinala que do total de 3 a 5 milhões de casos anuais de agricultores afetados, 40.000 morrem por intoxicações agudas. (8)

Uruguai: O diretor do Registro Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde Pública, Dr. J. A. Vasallo, em seu livro Câncer no Uruguai, de 1989, expressa que há um aumento de 64% nos últimos 30 anos. (9)

Brasil: Está comprovada a contaminação transgênica das Cataratas! Um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) no Parque Nacional do Iguaçu confirmou que os cultivos de soja transgênica que abundam em sua zona de influência são a causa da contaminação genética de diversas espécies vegetais. A plantação de soja na região limítrofe ao parque está proibida por lei. (10)

No primeiro semestre de 2004, a China embargou um carregamento de soja proveniente do Brasil que registrava contaminação com fungicida Carboxin e Captan. Este procedimento, segundo ambientalistas, é comum em exportações para países pobres, quando parte da carga comercial é misturada com grãos contaminados. Diante da recusa da China em aceitar o produto contaminado, acredita-se que a soja tenha sido adquirida por países com menor poder de impor restrições comerciais, como é o caso da Indonésia. No entanto, este mesmo lote com níveis de contaminação similares também pode ter parado na mesa dos brasileiros. (11)

Colômbia: É muito difícil calcular as intoxicações na Colômbia e na América Latina porque a maioria dos casos não é registrada. As autoridades subestimam as queixas, como ocorre com milhares de intoxicações pelas fumigações aéreas de Roundup (glifosato) em zonas de cultivos de uso ilícito na Colômbia, em concentrações muito mais altas que as autorizadas pelo uso agrícola.

Cabe recordar aquela ocorrida em 1967 em Chiquinquirá (Boyacá), Colômbia, que envolveu mais de 500 pessoas, 165 das quais precisaram de tratamento médico e 63 morreram. Dezenas de crianças se intoxicaram e morreram quando tomavam café com pão feito com farinha de trigo contaminada com Folidol (paration).

Peru: A tragédia de Tauccamarca, ocorrida em outubro de 1999, onde 24 crianças foram envenenadas e mortas depois de ingerir um alimento contaminado com Parathion, pesticida produzido pela multinacional Bayer, 24 crianças morreram na comunidade cusquenha depois de terem consumido um lanche escolar. A morte foi quase instantânea, em meio a dores atrozes. Outras 22 crianças sobreviveram, mas é possível que seus sistemas nervosos tenham ficado seriamente prejudicados. (12)

Calcula-se em milhares as mortes causadas pelo herbicida paraquat da Syngenta (Gramoxone) no mundo todo. O Paraquat foi responsabilizado por numerosos problemas de saúde nos países em que é utilizado. A Malásia é um dos 13 países que o proibiram, mas há 120 que ainda o usam. Em compensação, a União Europeia o aprovou. (13)

Na Costa Rica, desde 1980 e durante duas décadas tem sido registrado como o maior causador de envenenamentos e responsável por uma terça parte das mortes de centenas de trabalhadores agrícolas. Não se conhece antídoto nem tratamento eficaz para controlar um envenenamento com paraquat.

Estima-se que 85% dos casos não são registrados. Em 2000, foram registrados 752 casos de intoxicação com pesticidas, 12 dentre eles resultaram em morte. (14)

Uma investigação recente sobre a água engarrafada na Índia mostrou altos níveis de lindano, entre outros pesticidas como o DDT e o malation, altamente tóxicos, e por isso houve uma campanha contra a Coca-Cola por vender seus refrigerantes contaminados. Isso na Grã-Bretanha não foi nenhuma novidade, depois de ter acusado a mesma empresa que sua água mineral Dasani tinha o dobro de bromato do que o permitido e de não ser potável, mas, tirada da torneira, a partir dessa data, essa água engarrafada faz furor na Argentina. (15)

Chile: O lindano, apesar de estar proibido desde 1998 pelo Ministério da Agricultura para uso agrícola devido aos seus graves efeitos para a saúde das pessoas, segue sendo aplicado na cabeça de crianças para combater a pediculose. Longe de erradicar o mal, este fungicida provocou resistência e a pediculose se tornou endêmica, segundo reconhecem autoridades do Ministério da Saúde. (16)

México: Os índices de câncer no México aumentaram a partir de 1989. Representa a segunda causa de morte do país. Nesse ano houve 40.628 mortes (48,2 sobre cada 100 mil habitantes). Curiosamente, na cidade de Comitán, região produtora de suínos, e na região Costa de Chiapas, o alto índice de pessoas com câncer de estômago situa a cidade no primeiro lugar em nível mundial nessa doença. Na região é muito usado o lindano para matar os piolhos e atacar a sarna nos porcos. Também é usado em pó, que se aplica no milho para armazená-lo e evitar que seja atacado por insetos ou para que os gorgulhos não estraguem o feijão. Nesta região fronteiriça são realizadas há anos constantes fumigações sobre plantios de comunidades indígenas que atinge também casas, animais domésticos, plantações de milho e de café. Grandes populações de abelhas foram eliminadas e, com isso, os produtores de mel. O lindano, além disso, contamina altamente os solos, rios, poços, lagoas e águas subterrâneas.

Na Zona Altos o lindano também é frequentemente usado pelos agentes da Secretaria da Saúde para a aplicação em crianças de quatro meses para combater piolhos. A IARC, assim como a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (US EPA), classificou o lindano como possível cancerígeno humano.

Para uso agropecuário, existem três empresas que comercializam o Lindano: Agromundo, Engenharia Industrial e Indústrias Gustaffson. Cabe destacar que esta última foi comprada em 2004 pela multinacional Bayer, uma verdadeira especialista em envenenamento planetário, e que vende o Lindano sob o nome Germate Plus. A Bayer havia comprado, além disso, em 2001, a empresa Aventis Crop Science, uma fusão do Laboratorios Helios, AgrEvo e Rhone Poulenc. Além de borrifar os indígenas de Chiapas com Baygon. (17)

A empresa Anaversa, em Córdoba, Veracruz, em maio de 1991, causou numerosas mortes por câncer e efeitos crônicos na população; a limpeza do local nunca foi feita, nem as vítimas compensadas, embora a empresa tenha cobrado o seguro contra acidentes. Um segundo caso é o da empresa produtora do inseticida Artivi, em Juchitepec, Estado do México. Um terceiro caso é o da Tekchem, em Salamanca, Guanajuato, que produziu por décadas inseticidas organoclorados persistentes, o que produziu problemas de saúde e contaminação ambiental. Em suas instalações, a empresa conserva 84.000 toneladas de resíduos organoclorados que deixou Fertimex mais de 45.000 toneladas de enxofre contaminado. Estas e outras substâncias encontram-se no relento. (18)

As fábricas do espanto

DuPont: Durante a Guerra Civil nos Estados Unidos, ela administrava a metade da pólvora usada pelo exército da União, também dinamites. Continuou sendo um provedor do exército norte-americano tanto na Primeira como na Segunda Guerra Mundial e também colaborou no Projeto Manhattan, sendo responsável pela fábrica de produção de plutônio no Laboratório Nacional Oak Ridge.

A DuPont foi, ao lado da General Motors, o inventor dos CFC (substâncias danosas para a camada de ozônio). Em um relatório enviado por Saddam Hussein à ONU antes da invasão do Iraque revelou que a DuPont havia participado do desenvolvimento do programa nuclear iraquiano. Uma investigação da Agência de Proteção Ambiental acusou a DuPont de ocultar os efeitos do C-8 (um produto usado na obtenção do Teflon). Vários estudos sugerem que o efeito acumulativo deste material é cancerígeno, além de poder provocar deformações na gravidez.

Basf: A Basf é a maior empresa química do mundo. De origem alemã, compreende mais de 160 subsidiárias e conta com mais de 150 plantas de produção em todo o mundo. Entre seus produtos está a anilina, de efeitos cancerígenos para animais e seres humanos.

A IG Farben foi fundada em 1925 a partir da fusão da Basf, da Agfa e da Hoechst. A IG Farben foi a única companhia alemã com seu próprio campo de concentração, onde morreram ao menos 30.000 pessoas, e muitos mais foram enviados para as câmaras de gás. A IG Farben construiu uma fábrica em Auschwitz, com uma força de trabalho de aproximadamente 300.000 escravos.

O gás Zyklon B, que era utilizado nas câmaras de extermínio, era fabricado pela Degesch, uma subsidiária da IG Farben. Com este veneno foram executados milhões de judeus, ciganos e soviéticos.

Acabada a Segunda Guerra Mundial, os países aliados, durante os Julgamentos de Nuremberg, ordenaram o desmembramento do consórcio.

As empresas sucessoras da IG Farben na atualidade são a Bayer, Basf e Hoechst, que herdaram o total das propriedades da IG Farben, mas não as responsabilidades penais.

Atualmente, a Basf lançou uma campanha publicitária que promove o agrotóxico de nome comercial Opera, que é um fungicida – um veneno para fungos – que se utiliza nas monoculturas de soja para controlar doenças de fim de ciclo, em particular a ferrugem asiática. A publicidade mostra uma criança sorridente, com uma pequena planta na mão e com uma extensa plantação de soja ao fundo. A imagem é acompanhada pela frase ‘A inovação Basf está aqui para melhorar sua qualidade de vida’. O idílico da imagem está longe da realidade que o cultivo de soja e seu pacote tecnológico associado representam para o nosso campo e seus habitantes.

Bayer: Produziu até a Primeira Guerra Mundial uma droga chamada diacetilmorfina, uma droga aditiva, vendida originalmente como tratamento da tosse, que depois passou a se chamar heroína. A heroína era uma marca registrada da Bayer, até que foi proibida antes da Primeira Guerra Mundial.

De 1925 até 1951, a Bayer converteu-se em parte da IG Farben, conglomerado das indústrias químicas alemãs que formou a base financeira do regime nazista. O Dr. Fritz ter Meer, condenado a sete anos de prisão pelos crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg, foi feito Diretor Supervisor da Bayer em 1956, depois que saiu da prisão. Também são de sua atribuição a criação de agentes químicos, tais como: gás mostarda (arma química) e tabun (gás nervoso). (19)

Syngenta: Pesticida assassino e sementes Terminator. O Paraquat é vendido em mais de cem países com o nome genérico de Gramoxone – que representa uma parte importante dos lucros da transnacional radicada na Basileia que, em 2006, teve um lucro líquido declarado em cerca de 900 milhões de dólares – e causou milhares de mortes.

Nascida em 2000 da fusão das divisões agroquímicas da suíça Novartis e do consórcio anglo-sueco AstraZeneca, o Gramoxone segue sendo vendido em todo o mundo e sua expansão não para, como provam as novas fábricas que a empresa abriu na China.

Em maio desse ano, diversas organizações da Ásia, África e Europa, apresentaram uma denúncia contra a Syngenta na FAO. A empresa não respeita seu artigo 3.5 que pede para evitar certos pesticidas extremamente tóxicos. Em julho passado, a Corte de Justiça Europeia também se pronunciou contra esse produto.

As plantas do tipo Terminator produzem sementes estéreis que não dão mais que uma única colheita. Os camponeses não podem utilizá-la novamente como semente. Segundo a denúncia de março de 2006 das organizações suíças, o único objetivo dessa tecnologia é dominar o mercado de sementes e garantir o controle da alimentação mundial, o que implica em uma violação do direito humano da alimentação. (20) No Brasil, uma milícia armada atacou camponeses em um campo experimental da multinacional Syngenta situada em Santa Teresa do Oeste, Paraná. Este campo foi ocupado e denunciado pelos camponeses, mas às 13h30 do dia 21 de outubro, foram atacados. Um membro da Via Campesina, Valmir Mota, de 32 anos, pai de três filhos, foi executado com dois tiros no peito. Outros seis trabalhadores rurais foram gravemente feridos. (21)

Monsanto: Acusada de contaminar os moradores de Times Beach, as águas da população de Anniston, é criadora do Aspartame (Nutrasweet), adoçante de efeito tônico para o cérebro. Não satisfeita com isso, fornece a cafeína para a Coca-Cola.

Foi condenada pelo glifosato Roundup ao ficar demonstrado seu caráter potencialmente cancerígeno e perturbador do sistema endócrino e de provocar efeitos nefastos ao ambiente no longo prazo. (22)

Seu milho transgênico foi aprovado para consumo humano pela União Europeia. Entretanto, dois de seus híbridos submetidos à aprovação contêm a modificação genética Nk603 – foram analisados recentemente pelo instituto francês CRIIGEN, que encontrou claros sinais de toxicidade nos dados apresentados pela empresa fabricante, a multinacional Monsanto.

O terceiro milho aprovado, conhecido como Herculex, foi repetidamente denunciado porque as análises realizadas pelas empresas fabricantes – Pionner e Dow – revelaram sinais de toxicidade que exigem novas pesquisas.

Amigos da Terra, COAG e o Greenpeace denunciaram reiteradamente a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) por não exigir mais pesquisas antes de aprovar novos transgênicos e por não ter em conta as evidências sobre seus efeitos prejudiciais, já que enquanto não se produzir uma melhora radical da avaliação de riscos dos transgênicos, os processos de autorização devem ser suspensos. (23)

Na Índia, o Ministério da Agricultura reconhece que entre 1993 e 2003 ocorreram 100.000 suicídios de camponeses. E entre 2003 e 2006 (outubro) foram registrados 16.000 suicídios cada ano. No total, entre 1993 e 2006 houve cerca de 150.000 suicídios – 30 por dia durante 13 anos! Milhares de camponeses, cuja forma de vida foi destruída, recorreram ao suicídio como única escapatória.

Recorreram ao algodão da Monsanto buscando reduzir o custo em inseticidas, mas a armadilha do endividamento rapidamente tomou conta deles porque as sementes do algodão da Monsanto são ainda mais caras. (24)

O debate negado e os silêncios da imprensa

Essa é uma das principais conclusões feitas por uma meticulosa pesquisa realizada pelo Observatório de Imprensa da Agência Jornalística do Mercosul (APM), da Faculdade de Jornalismo e Comunicação Social da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), da Argentina. Essa pesquisa desnuda as técnicas manipuladoras da imprensa hegemônica.

Uma medição do Observatório de Imprensa da APM constatou que os principais jornais econômicos de Buenos Aires promovem o programa que converte a alimentação em gasolina para os ricos. (25)

A imprensa e os governos se negam a um debate sobre estes temas, negando e ocultando informação, quando justamente, conscientizando a população se evitariam tantas mortes e haveria um melhor manejo e prevenção dos agrotóxicos.

No entanto:

– Vemos na televisão dias atrás um vergonhoso programa de ‘Um mundo de baixo consumo’, aplaudindo os biocombustíveis, mostrando a cultura yanqui, e os carros híbridos, somente acessíveis a Bill Gates. Por que não foi feito no Paraguai, no Brasil ou em Santa Fé mostrando os estragos da soja?

– O mesmo canal levanta uma nota a realizar-se com integrantes da Acción Ecológica sobre mineração, seguramente por pressões. (26)

– A Corte da Província de Catamarca anula um plebiscito sobre a instalação de uma mina de urânio a céu aberto, apoiando-se no artigo 124 da nossa Constituição Federal, sem levar em conta que o artigo 41 está em “Direitos e Garantias” da nossa Constituição, se não se deram conta, e que o povo é soberano e eles são um número, um mero representante desse soberano. (27)

– As Crianças nascidas com deformações em Santa Fé e em Misiones, nunca tiveram uma nota em nenhum jornal de Buenos Aires. Alguns jornais locais e as redes ecologistas brigam sozinhas, expondo estes temas e mostrando ao mundo, que, com pavor, repetem as notícias uma ou outra vez, enquanto a Argentina se cala.

O milagre da soja, segundo alguns rafaelinos que escutamos, envergonhando-nos de serem santafesenses, em uma Universidade de Três de Fevereiro, Buenos Aires, falando de arte, agradecem à soja pela arte!

Brindem com Roundup, senhores... Quando os inseticidas matarem até o último pássaro das montanhas que ainda nos restam, não agradecerão nem à Monsanto, nem à Bayer, nem à Syngenta e companhia. Porque estar no holocausto e não se dar conta já é estar morto em vida.

Notas:

1- Rebelión “3 de diciembre, Día del no uso de plaguicidas”.

2- www.funam.org.ar : “Remueven residuos tóxicos enterrados clandestinamente por Eveready en Córdoba”.

3- www.rel-uita.org “3 de diciembre, Día del no uso de plaguicidas”.

4- www.rel-uita.org “Agrotóxicos de la guerra a la agricultura”.

5- www.Eco2site.com “Nuevo código para pesticidas”.

6- www.nodo50.org ”El drama de los agricultores nicaragüenses afectados por el pesticida nemagón”.

7- www.ecoportal.net “Malformaciones en Misiones por el uso de agrotóxicos”.

8- www.lineacapital.com.ar “Cinco de cada mil niños misioneros padecen malformaciones por agrotóxicos”.

9- www.ecocomunidad.org.uy “Agrotóxicos hasta en la sopa”.

10- Radio mundo real “Brasil: comprueban contaminación transgénica en Parque Iguaçu”.


12- www.rel-uita.org “3 de diciembre, Día del no uso de plaguicidas”.

13- www.ecoportal.net “Syngenta: Contaminación Agroquímica”.

14- www.agroecologia.es “3 de diciembre, Día del no uso de plaguicidas”.


16- Diario El clarín Chile.

17- www.ecoportal.net : “ Otra amenaza, el Lindano. Niños en peligro”.

18- Greenpeace “En el aniversario del accidente de Bhopal, repudian el uso de plaguicidas”.


20- www.paginadigital.com.ar : “La transnacional suiza Syngenta en la mirilla”.

21- Anred org:“Brasil: milicias armadas de Syngenta atacan a campesinos”.

22-Ecos de romang: “Doctor ¡grítelo mas fuerte!”.

23- www.amigosdelatierra.org “Ecologistas y agricultores denuncian que la UE aprobará tres transgénicos potencialmente peligrosos con el voto favorable de España”.


25- Biodiversidala.”Los silencios de la prensa argentina: ¿por qué no debaten sobre Agrocombustibles?

26- www.bolsonweb.com.ar “Canal 13 cancela una nota con un ecologista chubutense”.

27- Página12: “La consulta popular sobre minería que fue impedida por la Justicia”.

Fonte: UNISINOS