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terça-feira, 30 de abril de 2013

Impactos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores do campo


 Pesquisas médicas apontam que os agrotóxicos prejudicam a saúde das pessoas que trabalham com essas substâncias químicas. Os agrotóxicos estão entre os principais agentes tóxicos no país, com índices abaixo apenas de medicamentos, animais peçonhentos e produtos sanitários. Esse impacto pode ser definido de forma mais evidente a partir dos chamados efeitos agudos nos trabalhadores, mas há também os efeitos crônicos.

De acordo com dados de 2007, do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), 28% dos mais de 8 mil casos de contaminação estão relacionados a circunstâncias profissionais. São Paulo e Rio Grande do Sul estão nas primeiras posições. Os índices são elevados também na Bahia e em Santa Catarina. A Sinitox também apontou que foram registrados, no país, mais de 19 mil casos de intoxicação por agrotóxico.

O médico e professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Antonio Pignati, enumera as doenças causadas pelos agrotóxicos nos trabalhadores.

“São agravos, na saúde, agudos e crônicos. Intoxicações agudas e crônicas, má formação fetal de mulheres gestantes, neoplasia (que causa câncer), distúrbios endócrinos (na tiroide, suprarrenal, e alguns mimetizam diabetes), distúrbios neurológicos, distúrbios respiratórias (vários são irritantes pulmonares)”

A juventude está entre os principais afetados. O produto Adicarbe, mais conhecido no campo como “chumbinho”, é desviado para os centros urbanos para ser usado como raticida. O produto glifosato, aplicado no cultivo de soja transgênica, apresenta Classe 1 de contaminação, o que significa um índice elevado de intoxicação, sendo que a cultura da soja, onde o glifosato é aplicado, é responsável por 51% do uso de agrotóxicos no país.

Há, no Brasil, cerca de 451 produtos ativos e 1,4 mil produtos no mercado, cada um com nocividade específica. Os especialista admitem que é difícil desvendar o nexo entre a doença e o produto que a causou. Um dos problemas é a chamada subnotificação das ocorrências, que acontece porque os empresários não reconhecem o vínculo entre a doença do trabalhador e a sua causa. Por isso, os dados de intoxicação são ainda maiores.

No Mato Grosso, o médico Pignati realiza estudos comparando dados epidemiológicos das regiões do estado com diferentes níveis de utilização de agrotóxicos. Nas três regiões do agronegócio da soja, milho e algodão, há uma incidência três vezes maior de intoxicação aguda.

“Analisando por regiões o sistema de notificação de intoxicação aguda da secretaria municipal, estadual e do Ministério da Saúde, percebemos que onde a produção é maior, há mais casos de intoxicação aguda, como diarreia, vômitos, desmaios, mortes, distúrbios cardíacos e pulmonares, além de doenças subcrônicas que aparecem um mês ou dois meses depois da exposição, de tipo neurológico e psiquiátrico, como a depressão. Há agrotóxicos que causam irritação ocular e auditiva. Outros dão lesão neurológica, com hemiplegia, neurite da coluna neurológica cervical”.

De acordo com Gilberto Salviano da Silva, assessor da Secretaria de Saúde do Trabalhador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), há uma política de saúde do trabalhador mais consistente entre os trabalhadores urbanos. Mas os casos de acidentes e doenças na zona rural ainda têm menor notificação.

“O que notamos é que todas as normas em saúde do trabalhador têm sido focadas no trabalhador da cidade, então existem normas mais presentes e avançadas no setor da metalurgia, no setor financeiro, químico, da construção civil, e nem por isso, com estas normas, se conseguiu diminuir o número de acidentes de trabalho no Brasil; temos que entender que sempre foram subnotificados. Temos o problema dos empresários que negam as doenças e não comunicam.”

Salviano entende que o índice de notificações é insuficiente. Desde abril de 2007, começou a aumentar devido ao novo modelo de concessão de benefícios do INSS, denominado como Nexo Técnico Epidemiológico da Previdência Social (Netep).

Dessa forma, tem aumentado o número de registros de acidentes e doenças no Brasil. De acordo com o assessor da CUT, em 2006 foram registrados 510 mil acidentes. Em 2008, as estatísticas apontavam para quase 750 mil acidentes de trabalho.

“Essa subnotificação de doenças dificulta a visibilidade sobre o que acontece no local de trabalho. E o setor rural, isso é muito evidente, a ausência das informações, doenças e mortes por consequência do agrotóxico dificulta as ações de políticas públicas; esta subnotificação, no campo, é parecida com a da cidade. Os empresários negam que os trabalhadores fiquem doentes no campo. O serviço médico não está preparado para o diagnóstico; às vezes, os trabalhadores se contaminam ou morrem, e aparecem outras doenças. Então, as dificuldades, no campo, têm sido maiores”

Para a prevenção dos acidentes, Salviano compara as ações realizadas contra o uso do material amianto na construção civil. Hoje o amianto está proibido em uma série de estados do Brasil, por meio da articulação internacional com entidades contrárias ao uso deste material.

“Começar a chamar a atenção civil e criminal daqueles que fabricam produtos que provocam impacto no meio-ambiente, morte e doença dos trabalhadores, caminho possível para fazer valer a justiça social”

O uso de agrotóxicos provoca efeitos graves na saúde humana, como o desequilíbrio do sistema endócrino, infertilidade masculina, más formações e abortos, efeitos nas crianças e doenças nos sistema nervoso.

Nas terras da Chapada do Apodi e do Tabuleiro das Russas, no baixo vale do Jaguaribe, no Ceará, as pessoas vivem sob o regime de trabalho de empresas produtoras de abacaxi. Os cultivos são ao redor dos locais de moradia. Se uma área recebe oito pulverizações por ano, mais de 4,5 milhões de litros de caldas tóxicas foram lançadas sobre as comunidades nos últimos dez anos.

Todas as noites, 82 mil litros de agrotóxicos são jogados sobre 1,3 mil hectares de cultivo de abacaxi. Do total de trabalhadores pesquisados na região, 53% já têm marcas da exposição diária a agrotóxicos.

Os impactos para a saúde dos trabalhadores do campo, pelo uso dos agrotóxicos, evidenciam a necessidade de um debate sobre o tema no amplo conjunto da sociedade. O integrante do setor de Saúde do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), André Rocha, propõe um modelo de produção baseado na saúde ambiental.

“Saúde ambiental é uma área da saúde [que analisa] as interferências do homem no meio ambiente... como o meio influi na saúde humana, [como se dá] essa relação entre saúde e meio ambiente. Nós, do MST, nos dividimos em dois eixos: produção saudável e do saneamento ecológico/habitação saudável. Nossos locais de vivência e centros de formação. Construir espaços saudáveis, produção saudável. Cada bioma é uma realidade específica, um trabalho específico, mas o da produção saudável, produzir a soberania alimentar e consequentemente ter saúde questão contra os transgênicos, agrotóxicos”.

Reportagem: Pedro Carrano.
Fonte: Radioagência NP

Veja também:


Todavia, é a partir de 1975, com o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que cuidou da abertura do Brasil ao comércio internacional desses produtos, que ocorrerá um verdadeiro boom na utilização de agrotóxicos no trabalho rural. Nos termos do PND, o agricultor estava obrigado a comprar tais produtos para obter recursos do crédito rural. Em cada financiamento requerido, era obrigatoriamente incluída uma cota definida de agrotóxicos (Garcia, 1996; Meirelles, 1996; Sayad, 1984) e essa obrigatoriedade, somada à propaganda dos fabricantes, determinou o enorme incremento e disseminação da utilização dos agrotóxicos no Brasil (Garcia, 1996; Meirelles, 1996).

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232005000400013

Ciência & Saúde Coletiva - Agrotóxico e trabalho: uma combinação perigosa para a saúde do trabalhador rural

Áreas agrícolas registram mais casos de mortes por câncer

AGROTÓXICOS PODEM CAUSAM CÂNCER DE MEDULA

Ciência & Saúde Coletiva - Agrotóxico e trabalho: uma combinação perigosa para a saúde do trabalhador rural



Ciência & Saúde Coletiva - Pesticides and work: a dangerous combination for the Brazilian agricultural worker’s health: "Observamos ainda uma participação significativa do trabalho do menor e ocorrência do trabalho escravo em algumas regiões. Este cenário cria as condições para a composição de um quadro bastante desfavorável para a saúde dos trabalhadores do setor."

Exposição combinada

A contaminação e a mistura de agrotóxicos é situação muito presente na realidade do trabalho agrícola, seja por causa das impurezas, dos inertes, seja pela aquisição de produtos associados ou pelo uso simultâneo de várias substâncias (Novato-Silva et al., 1999; Silva et al., 1999; Silva, 2000; Soares et al., 2003).

A imensa maioria dos estudos não considera a interação que os diversos compostos químicos podem estabelecer entre si e sistemas biológicos orgânicos, sendo que essa interação pode até mesmo modificar o comportamento tóxico de um determinado produto, acarretando efeitos diversos sobre a saúde do grupo de trabalhadores expostos.

Os conhecimentos atuais são muito incompletos no que se refere aos efeitos para a saúde produzidos por exposição combinada a vários fatores biológicos, químicos, físicos e psicossociais; até agora existem apenas dados sobre as respostas sinérgicas resultantes da interação dos diversos fatores relacionados com o trabalho (OMS, 1981).

Este é um aspecto extremamente importante em relação à análise dos riscos e danos à saúde da população exposta e ao meio ambiente. Ressalte-se que a mistura de produtos se dá não apenas no campo, pela ação direta dos agricultores, mas também por meio das próprias empresas. De acordo com o Sindag, entre os produtos que estavam em comercialização no ano de 2003, vários deles eram misturas de ingredientes ativos, tais como 2,4-D + Diazinon (herbicida), Benalaxy + Mancozeb (fungicida) ou Deltametrina + Triazophos (inseticida).

A exposição combinada às substâncias químicas pode causar três tipos de efeitos sobre a saúde humana: independentes, sinérgicos (aditivos ou potencializados) e antagônicos. Apesar de ainda pouco estudada, alguns trabalhos demonstram que a resposta do organismo humano diante das exposições laborais combinadas pode ser influenciada por algumas características pessoais, tais como tabagismo, alcoolismo e o estado nutricional. Concordam, ainda, quanto a:

1) Substâncias químicas e temperaturas elevadas – o aumento da temperatura atmosférica aumenta a volatilidade e a pressão de vapor das substâncias químicas, aumentando sua disponibilidade para inalação e/ou absorção cutânea. Aumenta também a velocidade circulatória, aumentando ainda mais a absorção.

2) Substâncias químicas e esforço laboral – o esforço físico aumenta a ventilação pulmonar. Assim, o organismo se vê exposto a maiores quantidades de tóxicos existentes no ar.

Estes aspectos são relevantes, tendo em vista que os agricultores em geral desenvolvem as atividades de preparo e aplicação dos agrotóxicos numa situação em que estão presentes, ao mesmo tempo, misturas de agrotóxicos, esforço físico e temperaturas elevadas.

Os agrotóxicos são absorvidos pelo corpo humano pelas vias respiratória e dérmica e, em menor quantidade, também pela via oral. Uma vez no organismo humano, poderão causar quadros de intoxicação aguda ou crônica.

Sabe-se que a exposição a um determinado produto químico em grandes doses por um curto período causa os chamados efeitos agudos, eventos amplamente descritos na literatura médica. A associação causa/efeito é, geralmente, fácil de ser estabelecida. Em linhas gerais, o quadro agudo varia de intensidade, desde leve até grave, podendo ser caracterizado por náusea, vômito, cefaléia, tontura, desorientação, hiperexcitabilidade, parestesias, irritação de pele e mucosas, fasciculação muscular, dificuldade respiratória, hemorragia, convulsões, coma e morte.

Ao contrário, os chamados efeitos crônicos, que estão relacionados com exposições por longos períodos e em baixas concentrações, são de reconhecimento clínico bem mais difícil, principalmente quando há exposição a múltiplos contaminantes, situação bastante comum no trabalho agrícola. Há, neste caso, maior dificuldade para o reconhecimento de uma associação causa/efeito. Entre os inúmeros efeitos crônicos sobre a saúde humana são descritas alterações imunológicas, genéticas, malformações congênitas, câncer, efeitos deletérios sobre os sistemas nervoso, hematopoético, respiratório, cardiovascular, geniturinário, trato gastrintestinal, hepático, reprodutivo, endócrino, pele e olhos, além de reações alérgicas a estas drogas, alterações comportamentais etc. (Alavanja et al., 2004; Brasil, 1997; Colosso et al., 2003, Garcia, 1996; Silva et al., 1999; Silva, 2000). O quadro 1 apresenta uma síntese dos principais sinais e sintomas agudos e crônicos.


domingo, 28 de abril de 2013

Agricultores assentados plantam goiaba para mercado em São Paulo



Agricultores assentados no estado de São Paulo estão deixando de trabalhar só para o sustento da própria família e se tornando empreendedores. Encontraram no cultivo da goiaba o mote para essa transformação, e o produto de qualidade tem agradado o consumidor.

É na feira de domingo que os assentados do sudoeste paulista vendem boa parte da goiaba que sai dos seus lotes. O início de todo assentamento é praticamente o mesmo. Com a regularização das terras, as famílias dos agricultores se dedicam, em um primeiro momento, às atividades de subsistência: o plantio do feijão, da mandioca, a criação do gado de leite.

Com o passar do tempo, vem a descoberta da vocação agrícola do lote. Em uma região de São Paulo, é a fruticultura que aparece como a principal fonte de renda de muitos assentados, e o destaque é a goiaba.
O produto agrada tanto os consumidores da cidade. A cerca de 100 quilômetros da capital São Paulo, transitando entre os municípios de Iperó e Porto Feliz, em 1998, o Instituto de Terras do Estado de São Paulo incentivou o desenvolvimento De uma lavoura entre os assentados.

A agrônoma Maria Izabel Dorizzotto acompanha esse trabalho desde o início, e viu a plantação crescer até os atuais 1.200 pés de goiaba, principalmente das variedades Pedro Sato e Tailandesa.

“Nós entendemos que é uma atividade que tem tudo a ver com a agricultura familiar: o intenso uso de mão de obra, uma rentabilidade grande em pequenas áreas e a proximidade com o grande centro consumidor. A goiaba tem muita aceitabilidade no mercado, e nós entendemos que é uma cultura que deveria ser estimulada”, afirma Dorizzotto.

Para oferecer uma goiaba de qualidade, os assentados tiveram que adotar uma série de técnicas para produzir mais e melhor. O grampeador e o saquinho de papel têm muito a ver com um dos principais procedimentos adotados por aqui: o ensacamento dos frutos.

“Para prevenir o ataque da mosca-da-fruta. O fruto não fica bom para o comércio. Perda total no fruto quando ela pega”, diz o agricultor Claudinei Lemes, que consegue ensacar em torno de 2.000 a 2.500 frutos por dia.
Com a lavoura “enfeitada”, os agricultores conseguiram reduzir, e muito, o número de pulverizações para controlar as principais pragas que atacam a cultura. Nos frutos ensacados, fica até difícil encontrar o já conhecido bicho da goiaba.
A larva da mosca-da-fruta fura a goiaba e faz um estrago no seu interior. Para o controle dessa e de outras pragas, os agricultores costumavam fazer de dez a 12 pulverizações ao ano. Com o uso do saquinho, a aplicação não passa de duas ou três vezes no ano. Isso é feito antes do ensacamento, quando os frutos ainda estão pequenos.

Já acostumado a caprichar nos cuidados da sua lavoura, o agricultor Carlos Dellai resolveu aprimorar a técnica do saquinho. Abandonou o papel e adotou o plástico. “Estou fazendo essa experiência com saquinho plástico por conta da época de chuvas. Na época de chuvas, o saquinho de papel rasga muito”, diz.
“A gente faz um pequeno corte no fundo do saquinho onde o fruto transpira aqui e não tem o problema de danificar o fruto. Já é a segunda vez que a gente está fazendo a experiência e tem dado certo”, explica Dellai, que também faz uso de outras técnicas.

O consórcio entre goiaba e limão também é usado no lote de Dellai e tem dado bons resultados. “A gente entende que o limão é uma planta que cresce alta, é uma planta vigorosa e, além de dar frutos, também acaba servindo de quebra-vento para a goiaba, protegendo a goiabeira, tanto a planta quanto o ensacamento que a gente faz dos frutos”, afirma.

Com os 100 pés de goiaba que tem na propriedade, Dellai consegue produzir algo em torno de 2.500 quilos da fruta por ano, em duas safras, mas isso só é possível graças à irrigação.

Com os pés distribuídos de maneira estratégica, até o limão plantado nas linhas se beneficia da água dos aspersores. “É importante, na instalação da irrigação, a gente comprar aspersores que jogue a água mais na horizontal, porque a água batendo constantemente com a irrigação nos brotos novos da goiaba, ele vai danificar e aí vai permitir a entrada de doença”, diz o agricultor.

Com o intuito de se profissionalizar, Edilson Faccini também decidiu ensacar as goiabas do seu pomar. Foi um dos últimos assentados a adotar essa técnica. “Pelo fato até da condição financeira, porque é um custo mais caro para ensacar, e a mão de obra. Vamos gastar aí na faixa de R$ 20 o milheiro de saquinho, só que aí vem a mão de obra, que a gente tem que se desdobrar muito”, justifica.

Élcio da Silva é o enteado de Edilson e seu braço direito na lida com a goiaba. Em um talhão, está fazendo a poda e o raleio da plantas para estimular a brotação dos pés. Com a lavoura dividida em talhões, Élcio e Edilson têm plantas em floração, ensacadas, a ensacar e em produção.

O dia da colheita é o dia da prova para saber se a trabalheira de ensacar todas as goiabas realmente valeu a pena. Para saber se a goiaba está pronta para a colheita, basta olhar a coloração dentro do saquinho.

Enquanto Edilson tira os frutos maduros dos pés, Élcio se responsabiliza pela seleção das goiabas. “Separo as boas e as que têm algum descarte, que passarinho bicou e está mais machucadinha, descarto”, diz.
O fruto é vendido na feira de todo domingo no bairro Júlio de Mesquita, em Sorocaba, lugar movimentado e que hoje conta com a ajuda de Celina, esposa do Edilson e mãe de Élcio.

O quilo da goiaba na feira de Sorocaba sai por R$ 3.50. Além da venda na banca, os assentados também entregam a fruta para o comércio da cidade e para o programa Fome Zero.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Áreas agrícolas registram mais casos de mortes por câncer



Análise de medula óssea revela alteração genética em 11 de 43 trabalhadores agrícolas com riscos ao câncer

Petrolina (PE) / Fortaleza (CE). Regiões agrícolas têm apresentado mais casos de câncer do que onde não há atividade com grande uso de agrotóxicos. Isso se tem observado em Estados como Ceará, Pernambuco, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Não apenas levantamentos estatísticos comprovam isso, mas estudos clínicos e epidemiológicos, alguns com quase dez anos, feitos por especialistas em áreas como Toxicologia, Hematologia e Biogenética, tendo como área de pesquisa as cidades agrícolas de Limoeiro do Norte (CE), Petrolina (PE), Lucas do Rio Verde (MT) e Paty dos Alferes (RJ).

Potencial carcinogênico

Mesmo que, de forma isolada, diversos agrotóxicos tenham comprovado potencial carcinogênico, os atuais estudos dão maior segurança a quem entende a complexidade que há em se estabelecer nexo entre a exposição ao veneno e a doença para dizer: "sim, os agrotóxicos causam câncer, estão causando e há um número significativo de pessoas morrendo devido a esse problema", explica Chelda Bedor, biofarmacêutica com doutorado em Ciências da Saúde, pesquisadora da Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina (PE), que há cinco anos publicou um dos primeiros estudos amplos sobre o potencial carcinogênico dos agrotóxicos.

Com um elaborado modelo de Química Quântica (sugerido à Anvisa), Chelda demonstra toda a complexidade que relaciona as fórmulas estruturais dos venenos e em que medida elas se dispõem com as células humanas, por meio da transferência de elétrons, que constituem a parte mais externa dos átomos (menor partícula da natureza).

Em quase duas décadas, foi crescente o número de óbitos por neoplasias (câncer) na polo agrícola do Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia. Saiu de 12,2, em 1980; para 14, em 1993, e 31,8, em 2004 para grupos de 100 mil habitantes.

Maior incidência

Na região do Vale do Jaguaribe, no Ceará, a incidência de mortes por câncer é 38% maior em relação aos municípios não-agrícolas também do Ceará, conforme estudos do Núcleo Trabalho, Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabilidade (Tramas), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). "Nos casos gerais de câncer, o maior número de localizações anatômicas de neoplasias têm se conferido em agricultores", aponta Raquel Rigotto, coordenadora do estudo.

De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde do Ceará (Sesa), de 2001 a 2010, 424 pessoas morreram de câncer somente em Limoeiro do Norte (cidade tem 56 mil habitantes), média de uma morte por câncer a cada onze dias.

A suspeita de que os agrotóxicos participam deste dado é reforçada por estudo genético coordenado pelos médicos hematologistas Ronald Pinheiro e Luiz Ivando, comprovando alterações cromossômicas em trabalhadores da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte.

Foram coletadas 43 amostras de medula óssea, entre trabalhadores da cultura da banana para exportação e da agricultura familiar. Do total, 11 apresentaram alterações cromossômicas. "Elas são muito frequentes em doenças hematológicas como Leucemia Mielóide Aguda e Síndromes Mielodisplásicas. Precisamos ficar vigilantes com esses trabalhadores. Eles devem ser afastados do veneno. O câncer precisa de várias etapas para o aparecimento e, nestes casos, a primeira etapa apareceu", afirma Luiz Ivando, médico hematologista do Hospital Universitário Walter Cantídio, em Fortaleza.

No município de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, um dos campeões brasileiros no uso de agrotóxicos na soja e no algodão, foram detectados agrotóxicos no leite materno de 100% das 62 amostras coletadas entre a 3ª e a 8ª semanas após o parto. Endosulfan, DDT e Deltametrina estão entre as substâncias encontradas. Outros estudos da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) apontaram, com dados entre 2000 e 2006, que a incidência de câncer de mama em mulheres e de esôfago e estômago em homens foi de 20% a 50% maior nos municípios com alto uso de pesticidas do que se comparado às populações de áreas não-agrícolas.

Agrotóxicos com potencial carcinogênicos / mutagênicos são proibidos no Brasil. Na prática, existem dezenas desses produtos com registro autorizado para uso. É o caso do ácido giberélico, dimetoato, carbofurano, glifosato, folpete e metamidofós, encontrados nas lavouras de Petrolina (PE) quanto em Limoeiro do Norte (CE).

Limitações

"A avaliação conjunta de neoplasias diferentes utilizada em vários estudos também dificulta a interpretação dos achados. Além disso, o uso da ocupação como única maneira de identificar os sujeitos expostos (nos estudos que compararam agricultores a outras categorias ou à população geral) pode levar à distorção dos resultados", pondera a pesquisadora Maria Luiza Cunha, médica do Departamento de Saúde Coletiva da Santa Casa de São Paulo.

A intoxicação aguda é o tipo mais comum que chega aos registros do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox). A intoxicação crônica, pelo longo período de exposição, tem menos chance de ser diagnosticada quanto mais deficiente é o sistema de vigilância em saúde em rastrear o problema a partir de um estudo epidemiológico.

Para Chelda Bedor, há desinformação, tanto das equipes médicas que não traçam perfil histórico (anamnese laboral)dos agricultores durante as consultas, quanto desconhecimento desses próprios pacientes de associar veneno aos sintomas.

Casca de banana pode descontaminar águas poluídas com pesticida, diz pesquisa da USP


Um estudo da USP identificou que a casca de banana pode ser utilizada no tratamento de água contaminada pelos pesticidas atrazina e ametrina. Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) fizeram testes com amostras coletadas nos rios Piracicaba e Capivari, no interior do estado de São Paulo, que comprovaram a absorção de 70% dos químicos pela casca.

Embora ainda não comprovada a toxicidade desses pesticidas em seres humanos, a utilização de ametrina é proibida nos Estados Unidos por ter provocado mutação em espécies aquáticas.

"Já existiam outros estudos de uso da casca para absorção de metais, como urânio, cromo, então veio a ideia de utilizá-la para os pesticidas. A atrazina e a ametrina são muito utilizadas aqui na região [de Piracicaba] nas plantações de cana-de-açúcar e milho.Constatamos uma boa absorção também desses compostos orgânicos", explicou à Agência Brasil a pós-doutoranda Claudineia Silva, uma das pesquisadoras envolvidas com o trabalho. Os químicos, ao serem utilizados nas lavouras, contaminam indiretamente os rios.


Processo envolve exposição ao sol

Para que seja utilizada como agente de descontaminação, a casca da banana, que pode ser recolhida inclusive no lixo, é ressecada ao sol por uma semana ou em estufa a 60 graus Celsius (°C), o que diminui o tempo do processo para um dia.

Após a secagem, o material é triturado e peneirado para formar um pó para ser despejado na água. "[Em laboratório,] variamos a quantidade de casca de banana, tempo de agitação e verificamos quais seriam as melhores condições para conseguirmos o melhor resultado", disse Claudineia.

A casca da banana corresponde de 30% a 40% do peso total da fruta. A presença de grupos de hidroxila e carboxila da pectina na composição na casca é que garantem a capacidade de absorção de metais pesados e compostos orgânicos.

Testes piloto

A pesquisadora disse que até o momento foram feitos testes somente em laboratório, com pequenas quantidades, e que seria necessário fazer testes piloto para atestar a eficácia em grandes proporções. "Encerramos a primeira etapa. A proposta é continuar com o trabalho com um volume maior de água, 100 litros em um tanque por exemplo, pôr casca de banana e ir monitorando a absorção", disse.

A nova etapa possibilitaria que a casca de banana pudesse ser utilizada como descontaminante em larga escala. "É um mecanismo de baixo custo", disse. Silva aponta que, futuramente, o ideal é que essa descoberta seja utilizada em estações de tratamento de água. "Descartar toneladas de casca de banana nos rios iria gerar poluição e talvez uma contaminação em cadeia. A casca absorve do rio, o peixe come e a gente come os peixes", explicou.

De acordo com a pesquisadora, atualmente, a atrazina e ametrina são retirados da água por meio de carvão ativado. "É um custo maior, considerando que a casca iria para o lixo", disse.

Agrotóxicos e câncer



O Instituto Nacional de Câncer abre suas portas para discutir grave problema de saúde pública: a relação entre agroquímicos e carcinogênese. Este vídeo-reportagem capta alguns momentos e reflexões do 1º Seminário Agrotóxicos e Câncer, realizado no Rio de Janeiro nos dias 7 e 8 de novembro

Práticas Agroecológicas - Caldas e Biofertilizantes

terça-feira, 23 de abril de 2013

‘BRS Vitória’ Nova cultivar de uva de mesa sem sementes com sabor especial e tolerante ao míldio


‘BRS Vitória’ poderá ser uma excelente opção para os produtores orgânicos porque ela tem um nível de tolerância ao míldio ( principal doença) bem maior em relação a Niagara  Rosada que já é explorada com sucesso em sistema orgânico - VEJA VÍDEO

Embrapa lança variedade de uva resistente ao míldio

Nova cultivar tem alto teor de açúcar e sabor aframboesado

A primeira variedade brasileira de uva sem semente e resistente ao míldio foi lançada, em Marialva -PR(Norte), durante a Festa da Uva.

A BRS Vitória foi desenvolvida por meio de cruzamento convencional pela Embrapa Uva e Vinho, localizada em Bento Gonçalves (RS). Entre as principais características da cultivar estão o ciclo precoce, a alta produtividade e o elevado teor de açúcar.

O pesquisador João Dimas Garcia Maia explica que o míldio é a principal doença da videira no Brasil e, no caso das variedades suscetíveis, pode gerar perda de até 100% da produção se não for pulverizada de forma correta. ”O míldio é responsável por 60% das aplicações de fungicidas nos parreirais e a estimativa é de que com o uso da BRS Vitória ocorra uma redução de 40% a 50% nas pulverizações contra a doença”, calcula Maia.

Além do Norte do Paraná, a nova variedade foi avaliada no Noroeste e Sudeste de São Paulo, Norte de Minas Gerais e na região do Vale do Rio São Francisco, onde apresentou desempenho positivo. O pesquisador da Embrapa Uva e Vinho afirma que o ciclo produtivo da BRS Vitória, da poda até a colheita, tem duração de 130 dias no Paraná, sendo viável nas duas safras anuais. A produção indicada é de 20 toneladas por hectare em cada safra. ”A cultivar é extremamente fértil e o produtor deve retirar o excesso de cachos de forma a controlar a produção até 20 toneladas, pois o excesso pode prejudicar a maturação da fruta”, orienta.

Com alto teor de açúcar, o sabor aframboesado é o grande diferencial da BRS Vitória para os consumidores e, segundo Maia, a variedade já despertou demanda durante as demonstrações do produto. ”O teor pode chegar a até 23º Brix, mas o produtor deve ficar atento para fazer a colheita apenas depois que a uva atingir o grau 19 na escala, quando há equilíbrio de sabor”, ressalta.

O lançamento da BRS Vitória faz parte de um pacote de novidades da Embrapa Uva e Vinho, sendo que na semana passada foi lançada a cultivar de uva BRS Magna, para elaboração de suco. A comercialização de gemas da cultivar BRS Vitória e também da BRS Magna será feita a partir de julho de 2013. Os produtores interessados podem fazer reserva pelo site www.campinas.spm.embrapa.br, ou pelo telefone (19) 3749-8888

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