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segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Agrotóxicos exterminam abelhas no triângulo mineiro.
Notícias relacionadas:
Cientistas descobrem o que está matando as abelhas, e é mais grave do que se pensava
Enquanto isso ... o que acabaram de fazer nossos deputados:
Aprovada pulverização aérea de agrotóxicos vetados pelo Ibama
Comissão aprova liberação de agrotóxicos vetados pelo Ibama.
A Comissão de Agricultura aprovou proposta que libera a pulverização aérea de quatro substâncias proibidas pelo Ibama por suspeita de afastar abelhas. O relator do projeto diz que não há provas.
Os autores do projeto, Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) e Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), consideram,no entanto, que não há estudos no Brasil que comprovem o risco iminente à flora, à fauna ou a seres humanos com o uso desses agrotóxicos.
Veja o artigo completo no link abaixo:
Aprovada pulverização aérea de agrotóxicos vetados pelo Ibama
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Série Viúvas do Veneno3 - Da morte silenciosa aos gritos nas evidências e saudades de Vanderlei

Dando continuidade a série - Viúvas do Veneno, esse blog traz a reportagem principal publicado no terceiro dia.
Parabenizamos ao Jornal do Nordeste e seu repórter MELQUÍADES JÚNIOR, pela ousadia de fazer essa série e nos mostrar o que existe por de trás de cada número ... uma vida, uma família.
Para quem não viu a primeira reportagem Viúvas do Veneno, CLIQUE AQUI. e a segunda reportagem AQUI.
Limoeiro do Norte. Ressentir a dor talvez seja a comprovação de que ela nunca saiu dali. Como esquecer é ato vão, Gerlene Silva tenta superar a dor da perda de Vanderlei. Ela não acredita em superação, mas na possibilidade de conviver melhor com a dor da separação eterna. E a dor aumenta todas as vezes em que o filho, Davi, pergunta "cadê meu pai?".
Gerlene Silva tornou-se depressiva e evita falar com o filho sobre a morte do pai.
Foto: Waleska Santiago
Desde que Vanderlei Matos foi para o céu de Davi, Gerlene é tensa, depressiva. Não quer viver de pesar. Luta contra o luto. E, nesta batalha, ganha o nervosismo. Perde 35 quilos, mas ganha amigos a apoiar neste momento de pesar que já dura três anos. Perde um pedaço de sua própria identidade: aquela história de que existe a outra metade é verdade para a viúva, estranha alcunha para quem só tem 23 anos de idade.
Vanderlei é seu primeiro e único amor. Cresceram juntos nas ruelas da Cidade Alta, bairro mais populoso de Limoeiro do Norte. Tiveram Davi e, depois, carteira assinada para garantir o sustento.
Produtos químicos
Vanderlei manipula fertilizantes e agrotóxicos. Separa os produtos de acordo com a especificação e quantidades indicadas na guia para repassá-los ao setor de mistura. Também é sua tarefa guardar o estoque restante do produto. É assim por três anos, sempre no período da noite, desde 2005. Mas com o tempo, algumas coisas vão mudando no trabalhador rural.
"Vanderlei, tá acontecendo alguma coisa?". Gerlene não pergunta para saber, ela já sabe, só quer a sinceridade. O esposo está com uma cor diferente, se ele concorda que é estranho, pode ser um sinal de que ele também está preocupado e, portanto, aceita ajuda. "Ele sempre foi uma pessoa calada, não comentava nada com ninguém": "não, eu tô bem, não tem cor esquisita não", afirma.
Sintomas
Depois, a situação vai piorando e não é possível negar nem para si mesmo: rachaduras nos dedos, sangramento pelo nariz e ressecamento dos lábios. As primeiras consultas são com o médico da empresa. Vanderlei sente tontura, fraqueza nas pernas. Nem parece o rapaz de porte atlético que quando chega do trabalho tranca-se no quarto a fazer exercícios aeróbicos e levantamento de peso. Está sempre em forma para jogar futebol, sua diversão predileta. Fora o trabalho, suas duas "saídas" são para o campo jogar e para os passeios com a família no fim de semana.
Testemunha
"Macho, vá pra casa". É o agricultor Anaildo Silva tentando fazer alguma coisa pelo amigo, vizinho e colega de trabalho. Hoje, é testemunha das atividades exercidas por Vanderlei, bem como das crises doentias que ele tem e não conta em casa e nem fora dela. "Eu pensei que ia melhorar, mas foi cada vez piorando", lembra Gerlene. E ninguém sabe o que é. Daí a razão do "não, meu filho, vá mais pra lá, vá" que ele diz toda vez que o menino se aproxima.
Só perde o medo de contaminar quando, após exames realizados no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza, percebe-se a grave discrasia sanguínea, uma séria alteração venosa e, ainda mais, o comprometimento das funções do fígado, exigindo um transplante com urgência.
Com filho de pouco mais de 1 ano de idade, Gerlene não pode sair da cidade. Acompanha por telefone os 23 dias de internação hospitalar de Vanderlei. Dá entrada no dia 7 de novembro de 2008. O dia 30 do mesmo mês, especificamente à 1h40, é uma data para se esquecer. Melhor, superar, ou, ao menos, conviver com a realidade da dor, que, se não sair, ao menos doa menos.
Evidências
A morte de Vanderlei Matos causa medo em dezenas de homens do bairro Antônio Holanda, a Cidade Alta, em Limoeiro do Norte. O lugar até hoje fornece boa parte dos trabalhadores rurais para a região. Até então, os relatos comuns de enjoos e fraquezas não eram associados à exposição diária aos agrotóxicos, menos ainda que isso pudesse causar a morte. A família não tem dúvidas de que o veneno contaminou o homem.
"Eu só quero que não aconteça com outras pessoas o que aconteceu com meu marido. Eu queria que tudo isso se resolvesse em paz. E tão ruim, depois dele morrer ainda ver gente passando por esses problemas", afirma a jovem viúva.
A Universidade Federal do Ceará (UFC) realizava desde 2006 o "Estudo Epidemiológico da População da Região do Baixo Jaguaribe Exposta à Contaminação Ambiental em Área de Uso de Agrotóxicos". É neste contexto que conhecem o caso de Vanderlei.
Diante das especulações sobre a causa mortis, três médicos especialistas decidem investigar: Maria Terezinha, doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP); Alberto Novaes, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e José Milton de Castro Lima, Gastro-Hepatologista e doutor em Gastroenterologia pela Escola Paulista de Medicina. O diagnóstico: morte por hepatopatia grave induzida por substâncias tóxicas.
Resultado parecido vem de investigação paralela de Ayla Maria Cavalcante Sales, perita médica do Ministério do Trabalho. O caso ainda aguarda resposta da Justiça do Trabalho.
Seu céu
A jovem viúva Gerlene não esperava que acontecesse, muito menos tão cedo, mas, como a mãe, sente a dor de ser viúva. Dona Maria do Socorro Silva dos Santos preenche, junto com seu filho, Davi, uma parte do vazio deixado por Vanderlei. Hoje, a família é formada pelas duas viúvas, Davi e o retrato de um homem que nunca sairá da parede da sala.
Ela nos conta que espera que o filho cresça um pouco mais para entender que, antes de ir para o céu, "seu pai trabalhava com o veneno. Aí, ele não se deu bem e morreu", de uma forma silenciosa e crônica, como ocorreu com outros trabalhadores abordados nesta série especial de Reportagens.
Veja também:
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Série Viúvas do Veneno 2 - O destino cruel de Rosália, Aldo, Maycon, Pedro, Sueli...

Dando continuidade a série - Viúvas do Veneno, esse blog traz a reportagem principal publicado no segundo dia.
Parabenizamos ao Jornal do Nordeste e seu repórter MELQUÍADES JÚNIOR, pela ousadia de fazer essa série e nos mostrar o que existe por de trás de cada número ... uma vida, uma família.
Para quem não viu a primeira reportagem Viúvas do Veneno, CLIQUE AQUI.
No final desse artigo tem vários links que faz parte da série.
Cubati (PB). Na casa de Marizaldo, tudo lembra Rosália. Coisa de menina que pega uma caneta e escreve o próprio nome num pedaço de papel ou de parede e vai espalhando a sua existência pela casa. Na janela azul que dá para a rua sem nome, um pedaço de giz escreve Rosália, Aldo, Maycon, Pedro. Uma família existe ali. O último nome, ainda não colocado, seria de Samuel, mas da última vez que Rosália sai de casa, para não voltar, o garoto só existe em sua barriga.
Sem Rosália, Aldo cuida dos três filhos com a ajuda da sogra e da irmã. Foto: Waleska Santiago
Hoje, do lado de dentro, são várias fotos que espalham a ausência de Rosália pela casa. Em Cubati, agreste Paraibano, a reportagem encontrou um viúvo do veneno. Aldo (ninguém o chama Marizaldo) perdeu Rosália, que deixou três filhos sem mãe. Sueli perdeu a filha e, no fim das contas, todos saíram perdendo.
Com 28 anos, Aldo planta tomate perto de casa, é o responsável pela aplicação do coquetel de venenos. Aprendeu quando trabalhou nas grandes plantações à beira do açude Boqueirão, que leva o grosso da produção para Campina Grande e João Pessoa.
Veneno na roupa
Rosália, de 23 anos, é a responsável pela lavagem da roupa de Aldo quando volta da aplicação do veneno. "Ela colocava na bacia pra enxaguar, a água ficava verde que você precisava ver". Na prática, Rosália toca diretamente o que Aldo tenta não tocar. A mulher morre e o marido não se perdoa.
Vez por outra, ela ajuda na plantação de tomate. Diminui o cansaço do marido e ainda garante que ele não tarde a chegar. A última vez que vai, já está com o bucho apontando para frente.
Nas consultas de pré-natal, Rosália é alertada pelo médico de que não tenha contato com os venenos que o marido aplica, já que mulher grávida fica com o sistema imunológico baixo.
No sexto mês de gestação, as manchas no corpo e o sangramento não parecem mais normais para o período. Rosália vai para o hospital público de Soledade, município maior que Cubati. De lá, a enviam para Campina Grande, porque já se constata a necessidade de transfusão sanguínea. Mas só encontram tratamento para ela no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Filgueira (Imip), em Recife (PE).
Rosália sofre sem dor. A Leucemia é silenciosa até quando já domina o corpo. Tem, sim, uma dor ainda maior do que seria a do câncer mesmo se ele resolvesse gritar em suas veias: a saudade. De Aldo, o esposo e primeiro namorado, de Maycon e Pedro, os filhos. Ainda mais de Samuel, o único a estar com ela no hospital porque vai de carona em seu útero e por mais um mês fica.
Os filhos
Quando vai crescendo, as roupas de Maycon ficam para Pedrinho, três anos mais novo. Com Samuel, o caçula, seria o mesmo. E é, porque Samuel sobrevive. Quando Rosália começa a perder ainda mais sangue já tem um mês de hospital. Os médicos fazem cesária de emergência.
É quando o paradoxo bate à porta da família: a alegria do nascimento e a tristeza da doença. O menino nasce e Rosália não para de sangrar. A comemoração congela-se no tempo, coagula-se. "Era uma pessoa que não se maldizia com nada. Só chorava mesmo com saudade dos meninos", conta dona Sueli, mãe de Rosália.
Com a doença de Rosália, Aldo desiste da plantação de tomate. Mais que isso, não come mais tomate e desiste da agricultura. O campo em que produzia para o "Rei do Tomate" está abandonado e quando começar a funcionar de novo não será pelas mãos dele. As mãos que, com outras, plantava dez mil pés de tomates e colhia seis mil caixas do vegetal por mês, o que lhe rendia cerca de R$ 800.
"Acontecer logo com ela? Porque a gente cuidava disso, do veneno. Eu acho que se tivessem descoberto antes, tinham resolvido. Ela estava viva hoje". Mas nem Aldo passa ileso ao contato com o veneno. Antes da aplicação, ele que faz o coquetel, a mistura de vários venenos.
"Era veneno de tudo no mundo. Aí mexia e colocava um motorzinho nele e saia com as mangueiras pulverizando, de uma ponta a outra. Dependendo do campo, era o dia todinho. Tinha dias que eu andava quase gelando, os ossos doendo, quase sem poder andar, com febre. Depois que saí de lá eu não tive mais nada", conta.
Fome
Com um cateter enfiado na garganta - não bastasse a leucemia, ainda tem complicações nas vias respiratórias, Rosália tem um sonho, naquele momento o maior: ir a um restaurante. Arroz, feijão, farofa e carne foram perdidos do seu paladar em mais de um mês só comendo um ensopado do hospital. "Um dia eu provei... A coisa mais horrível do mundo", lembra Sueli.
Rosália passa o dia vendo as fotos de Maycon e Pedrinho. Passa a mão como se acariciasse os rostos. Pergunta se estão comendo, fazendo o dever de casa. E Samuel? Tão pequeno e indefeso, e privado do conforto da mãe. Vê Rosália, e é visto por ela, apenas por duas vezes em que ela dá de mamar. Tão fraca, mas forte para alimentar outra vida.
O bebê recebe alta na mesma semana em que nasce. Sem a mãe, Samuel ganha outras duas: a própria avó materna, dona Sueli, e a tia Joelma, irmã de Aldo. Para as outras duas crianças, o pai está lá, mas, com a mãe, é diferente. E é diferente todas as noites. Rosália contava história para Maycon. O que não vinha da cabeça de mãe, era pelos livros ilustrados da estante. O mundo do garoto fica menos fantástico sem Rosália. "De vez em quando ele me chama, mas não sei contar história não. Como não dorme só, ele fica mais eu assistindo TV até pegar no sono, aí levo pra cama", conta Aldo.
No leito hospitalar, Rosália não dorme sem a mãe por perto. O sono das duas vem para dar uma pausa no pesadelo.
Força
"Não sei de onde tirei tanta força, você ver um filho seu ali, se acabando e não poder fazer nada". Pior do que estar com a filha doente no hospital é não estar lá no lugar dela. Mesmo com os dias dedicados a Rosália, Sueli precisa aparecer por casa, saber dos outros filhos e de Damião, o marido. Dá um abraço na filha. "Mamãe, não demore". "Demoro não". Quando volta, Sueli vê nos olhos de Rosália "a maior alegria do mundo".
De volta para Cubati, o telefone toca e dona Sueli vibra. É do hospital. Tiraram Rosália da UTI. Ela está pior, mas é a forma encontrada para chamar um familiar sem causar pânico.
"Ela pelejava pra falar, eu via nos olhos dela, mas não conseguia. Apontou para a sonda. Eu vi e disse tô vendo, minha filha, mas não se preocupe não que eles tão botando sangue". Como quem sai para tomar água, Sueli vai para no corredor hospitalar e desaba em lágrimas.
A causa
"O que acabou com ela foi o veneno, acabou a medula dela. Eu acredito no médico, no que eles disseram. Primeiro suspeitaram que poderia ser picada de um besouro, ai viram que não era. Suspeitaram um monte de coisa, quando veio o resultado do exame que levaram pra São Paulo", conta a mãe.
PARA APROFUNDAR VEJA:
O tempo não se repõe. E mesmo que o fizesse, e fosse como as transfusões de sangue que pouco efeito surtem em Rosália, ganhar horas pode significar dose extra de saudade e sofrimento.
Uma manhã não foi como outras. Rosália amanhece esperta, que depois Sueli entende como a "melhora da morte". O olhar está mais vivo. Com o dedo, aponta para o próprio rosto. Quer um beijo. A cama é alta, mas Sueli dá um jeito. Rosália retribui passeando levemente a mão no rosto da mãe. De sublime, o momento é doloroso. "Eu saí porque não aguentei. Ela jogou um beijo pra mim. Eu disse fique aí que eu já venho". Enquanto chora novamente no corredor, Sueli guarda a cena do beijo, derradeira entre mãe e filha.
Samuel está com oito meses e segue cuidado pela vó Sueli e a tia Joelma. Maycon ficou mais calado e não pergunta uma só vez pela mãe, mas revela a saudade em todas as noites em que gostaria de dormir ouvindo histórias.
Pedrinho pergunta pela mãe todos os dias. De vez em quando olha para o céu e pergunta: "mamãe não vai descer não?". E, quando Aldo chega do centro da cidade, solta: "não trouxe a mamãe não?".
Rosália se foi há oito meses. Renata, outra filha de dona Sueli, está grávida de uma menina no oitavo mês de gestação. Para a família, é Rosália voltando em forma de esperança, sentimento transformador nessa família paraibana.
MELQUÍADES JÚNIOR
REPÓRTER
Fonte: Diário do Nordeste
Veja também:

Para aprofundar:
domingo, 18 de agosto de 2013
Brasil registra o aumento de mortes por agrotóxicos

Em 2010, 171 pessoas morreram intoxicadas por venenos de uso agrícola no País. Nordeste lidera casos
Campina Grande (PB). Poucos produtos conseguem quase dobrar a venda, na escala mundial, em um curto espaço de tempo. Os agrotóxicos tiveram crescimento de mercado mundial de 93% nos últimos dez anos. Não no Brasil, que teve avanço maior que 190%. Um mercado nacional que em 2002 representava R$ 2,5 bilhões chega, passados dez anos, à cifra de R$ 8,9 bilhões. Os estudos do impacto desses produtos não acompanham a própria liberação do comércio e, menos ainda, a informação sobre o uso. O resultado: mais pessoas estão morrendo por agrotóxico agrícola.
No Brasil, foram 4.789 casos registrados de intoxicação por esses produtos em 2010. No período, foram 86.700 casos totais de intoxicação sob diversos agentes, como agrotóxicos, animais peçonhentos, raticidas e dormissanitários. Os óbitos causados por veneno representam, por exemplo, 10% das mortes por trânsito nas estradas brasileiras; e o Brasil é o quarto país onde mais se morre no trânsito.
Mesmo os casos notificados levam muito tempo para chegar ao Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox). Por isso, o ano de 2010 é o mais recente. Somente quando todos os Estados repassam as informações um novo ano fica disponível para consulta. Assim, a reportagem buscou números mais atualizados nas gerências regionais dos Centros de Assistência Toxicológica (Ceatox) de alguns Estados brasileiros, conforme indica o infográfico ao lado.
A Região Sudeste apresentou, ainda em 2010, o maior número de casos de intoxicação: 2.145, seguida das regiões Sul (898), Centro-Oeste (808) e Nordeste (823). O Norte apontou 115 casos. Mas, no ranking de mortes, o Nordeste está em primeiro lugar. Foram 82 óbitos de um total de 171 em todo o País em 2010. Isso representa 47,9% de todas as mortes por agrotóxicos registradas no período. O total representa duas vezes mais que as mortes por medicamentos (67) no mesmo ano.
A média é acompanhada no levantamento de mortes entre 2001 e 2010. O Nordeste apresenta 37,7% das mortes, seguido de Sudeste (24,52%), Sul (18,40%), Centro-Oeste (17,24%) e Norte (2,65%).
São 17 categorias de circunstâncias apontadas no levantamento: acidente individual, acidente coletivo, acidente ambiental, ocupacional, uso terapêutico, prescrição médica inadequada, erro de administração, automedicação, abstinência, abuso, ingestão de alimentos, tentativa de suicídio, tentativa de aborto, violência/homicídio, uso indevido, ignorada e outra.
Suicídio
A facilidade com que se pode comprar o agrotóxico é um dos principais fatores para que estes produtos sejam bastante usados por quem tenta contra a própria vida. Em 2010, tentativa de suicídio representou 44,5% dos casos de intoxicação por agrotóxico agrícola e nada menos que 85% das mortes. A maior parcela desses suicídios se dá em zonas rurais, onde é mais fácil o contato com o veneno, cada vez mais abundante.
No perfil circunstancial, a maioria por pessoas que não têm contato com a atividade agrícola, mas sabem onde adquirir, de forma facilitada, o agrotóxico. Em linhas gerais, não fazem parte da estatística de intoxicação porque sofrem os trabalhadores expostos ao veneno.
Mas os números não dizem tudo. De acordo com a biofarmacêutica e doutora em Toxicologia Sayonara Fook, diretora do Ceatox de Campina Grande (PB), dentre as várias doenças causadas na intoxicação crônica por agrotóxico está a depressão. Alguns venenos atingem diretamente o sistema nervoso. "A exposição ao produto pode gerar problemas crônicos e há, sim, casos de agricultores que cometem suicídio com o próprio produto que aplicavam".
É o caso de transtornos psíquicos causados pela exposição contínua aos agrotóxicos do tipo organofosforados, usados em grande escala em diversas lavouras. Este inseticida é um dos mais comuns no mundo. Aparentemente fornecem menor risco ao meio ambiente, por sua rápida decomposição após a aplicação. No entanto, é muito tóxico para ser humano e animais. Um exemplo comum é o metamidofós, encontrado na água para consumo doméstico em comunidades da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte, no Ceará.
Como o metamidofós, outros produtos organofosforados estão em fase de reavaliação pela Anvisa. São conhecidas mais de 35 mil formulações desse composto, sendo a primeira usada o tetraetilpirofosfato, em 1854. Depois em 1932 como agente de guerra (matando por asfixia em câmaras de gás).
Subnotificação
Os dados que chegam aos centros de toxicologia ainda são precários. A maior parte nem chega. O Ministério da Saúde aponta que, para cada caso de intoxicação registrado, outros 40 não são notificados.
"Existe uma série de dificuldades para reconhecer o problema, principalmente se existe intoxicação crônica. Podemos ter resíduos de agrotóxicos, seja pela exposição ou pelos alimentos, mas dificilmente associamos a alguma doença que adquirimos. Queremos garantir que até 2015 todas as secretarias municipais de saúde tenham um protocolo para casos de intoxicação", afirma Guilherme Franco Netto, diretor do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde.
Veja também:

Série Viúvas do Veneno 1 - Silêncio e dor se multiplicam nos campos brasileiros

Este blog estará reproduzindo, a série viúvas do Veneno, feita e publicada pelo Diário do Nordeste , a qual parabenizamos pelas matérias e coragem para trazer esse tema ao debate, porque esta é a unica forma de mudar essa realidade.
Nesta série contamos a história de homens e mulheres vítimas da intoxicação por agrotóxicos na atividade agrícola e o que diz a política, a economia e a ciência
Para garantir a colheita e aumentar a produtividade, passou-se a usar o agrotóxico, que alguns chamam de defensivo químico ou agroquímico. O veneno usado para matar pragas nas lavouras chega com força ao ser humano e ao meio ambiente quanto maior e mais indiscriminado é o seu uso. Mortes silenciosas passam a ocorrer nos campos agrícolas brasileiros e fora deles. Assim foi com Valderi, Wanderlei, Rosália, Liberato e Antônio. Estes são alguns entre milhares de nomes registrados pelo Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (Sinitox) com óbitos por agrotóxico agrícola.
São trabalhadores rurais do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Bahia, que conhecemos após percorrer quase 6 mil quilômetros. Os seus últimos anos de vida são narrados pelas esposas, as "viúvas do veneno". Entre as vítimas incluímos Rosália, que lavava diariamente as roupas do marido sujas de veneno. Morreu de leucemia. Deixou três filhos e Marizaldo, o viúvo desta série.
Maria da Conceição cuidou dos últimos dez anos de vida de Valderi. Mas os cinco últimos valeram por outros dez. O agricultor foi perdendo partes do corpo. A reportagem conheceu Valderi logo após ele perder os primeiros dedos do pé, em 2005. Fizemos também a sua última foto em vida, em 2008.
Esta série especial não começa agora, mas há sete anos, em Limoeiro do Norte, cidade de José Maria Filho, uma das fontes exclusivas entre os moradores e lideranças na Chapada do Apodi. Sabíamos, dois anos antes, das ameaças de morte que sofria por denunciar a pulverização aérea onde hoje está um dos maiores polos fruticultores do Nordeste. Mesmo assim, ele insistia em não se calar. Quando foi assassinado, a comunidade de Zé Maria não se calou e os cientistas constataram as doenças causadas pelo veneno denunciado. A partir de amanhã, e até domingo, acontece a Semana Zé Maria do Tomé. Serão dias de protestos pela causa ambiental.

O Brasil é, há mais de quatro anos, o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Somente em 2011 circularam cerca de US$ 8,9 bilhões no comércio de veneno, dominado por nove empresas fabricantes que não concorrem entre si, pois, para cada cultura, uma delas produz um ou vários venenos específicos.
Em todo o País, foram confirmadas 171 mortes por agrotóxico agrícola somente em 2010, ano mais recente levantado pelo Sistema Nacional de Informações Toxicológicas. Mas a subnotificação é um dos grandes imbróglios neste setor. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada caso notificado, existem outros 40 que não são.
E de quem é a culpa? Do modelo agrícola, da desinformação do trabalhador, do lobby dos fabricantes de venenos, da venda a qualquer custo? Desde a "revolução verde", há 50 anos, não se falou tanto em agrotóxicos no Brasil quanto nestas primeiras décadas do século XXI. "Delicado", "espinhoso", "polêmico", "necessário" são alguns adjetivos dados ao assunto, não importa qual opinião se tenha. No meio disso tudo, um fato: mais pessoas estão morrendo, o solo e a água estão com maiores teores de produtos químicos. Tudo de uma forma silenciosa, só definida com o tempo.
Estivemos também em Campinas (SP) reunidos com autoridades do agronegócio e representantes do segmento fabricante de agrotóxicos. Enquanto tudo isso, o mundo corre para garantir a segurança alimentar para 9 bilhões de pessoas até 2050. Há respostas de cunho político, econômico, social ou científico. Todas elas são consideradas nesta série especial inédita de hoje até o próximo dia 20 de abril.
CONFIRA MAIS MATÉRIAS, QUE FAZEM PARTE, DA SÉRIE VIÚVAS DO AGROTÓXICO 1:



VEJA TAMBÉM:
VÍDEOS E ENTREVISTAS COM AS VIÚVAS DO VENENO
Viúvas do Veneno 2 - O destino cruel de Rosália, Aldo, Maycon, Pedro, Sueli...
Viúvas do Veneno3 - Da morte silenciosa aos gritos nas evidências e saudades de Vanderlei
Viúvas do Veneno 2 - O destino cruel de Rosália, Aldo, Maycon, Pedro, Sueli...
Viúvas do Veneno3 - Da morte silenciosa aos gritos nas evidências e saudades de Vanderlei
CRÉDITOS: DIÁRIO DO NORDESTE
PARA APROFUNDAR:

Pesquisa da Faculdade de Medicina traz avanços na prevenção do câncer de medula
PARA APROFUNDAR:

Pesquisa da Faculdade de Medicina traz avanços na prevenção do câncer de medula
sábado, 17 de agosto de 2013
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Cientista pró-transgênicos muda de lado após 30 anos de apoio à Monsanto

"Eu me aposentei há 10 anos após uma longa carreira como cientista e pesquisador da Canada Agriculture. Lá, eu era o responsável para lidar com distintos grupos públicos e tranquilizá-los de que os alimentos geneticamente modificados eram seguros. Há, entretanto, um crescente corpo de pesquisa científica - feito principalmente na Europa, Rússia e outros países - que demonstrou que as dietas contendo milho ou soja transgênicos podem causar sérios problemas de saúde em ratos de laboratório.
Sempre fui um estudioso dos transgênicos e defensor do progresso e da tecnologia.
Nos últimos 10 anos, entretanto, a minha posição mudou. Eu comecei a prestar atenção ao fluxo de estudos publicados vindos da Europa, feitos por laboratórios de prestígio e publicados em revistas científicas de renome. Esses estudos questionavam o impacto e a segurança dos alimentos transgênicos.
Eu refuto as alegações das empresas de biotecnologia que suas lavouras transgênicas produzem mais, que eles exigem menos aplicações de pesticidas, que não têm nenhum impacto sobre o meio ambiente e, claro, que eles são seguros para comer.
O milho BT e plantas de soja que estão em toda parte em nosso ambiente são registrados como inseticidas. Mas seriam essas "plantas-inseticidas" regulamentadas e será que suas proteínas foram testadas nos quesitos de segurança? Não pelos departamentos federais encarregados pelos alimentos, e não no Canadá e nem nos EUA.
Não existem estudos de longo prazo realizados nesses países para confirmar que as alegações de os transgênicos são seguros. Tudo o que temos são estudos científicos da Europa e da Rússia mostrando que ratos alimentados com comida transgênica morrem prematuramente.
Os estudos mostram que as proteínas produzidas por plantas modificadas geneticamente são diferentes do que deveriam ser. A inserção de um gene estranho num genoma complexo usando esta tecnologia acabam resultando em proteínas danificadas. A literatura científica está repleta de estudos que mostram que o milho engenharia e soja contém proteínas tóxicas ou alergênicas."
Fonte e mais informações acesse:
Mais sobre o tema - acesse:
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Pesquisa da Faculdade de Medicina traz avanços na prevenção do câncer de medula

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará desenvolveram um método inédito de identificação de alterações genéticas que, se não diagnosticadas precocemente, podem levar ao câncer de medula óssea e a outras neoplasias. O trabalho foi feito com 50 agricultores do município de Limoeiro do Norte, a 167 km de Fortaleza, expostos a grandes volumes de agrotóxicos devido ao cultivo da banana, um dos principais produtos agrícolas da região. Ao investigarem a estrutura de cromossomos coletados diretamente na medula dos trabalhadores, os pesquisadores da UFC verificaram a existência de mutações genéticas graves em 25% dos casos, percentual considerado "alarmante". Nesses agricultores, foram identificadas alterações nos cromossomos 5, 4, 7 e 11 – quadro semelhante ao de pacientes com leucemia. Dos 50 agricultores, sete também apresentaram mutação no gene TP53, indicativa do mais alterado dos diversos tipos de câncer.
Veja um vídeo com a reportagem:
Pesquisadores investigam a relação entre os agrotóxicos e a saúde no Ceará
Pesquisadores investigam a relação entre os agrotóxicos e a saúde no Ceará
Os resultados foram obtidos durante a pesquisa de mestrado do aluno Luiz Ivando Pires, sob a orientação do Prof. Ronald Pinheiro, do Laboratório de Citogenômica do Câncer, da UFC. Segundo Pinheiro, alguns cientistas já vinham tentando investigar a relação entre o uso de agrotóxicos e as mutações genéticas capazes de provocar o câncer. Entretanto, como as avaliações eram feitas com base em cromossomos retirados do sangue periférico (de outras partes do corpo), os resultados não eram satisfatórios.
O Prof. Ronald explica que as alterações cromossômicas não significam, necessariamente, a presença do câncer no indivíduo, mas acendem o sinal de alerta para os cuidados com a prevenção. Daí a importância da pesquisa. "Essas alterações aparecem antes de o câncer se manifestar. Se a gente retira as pessoas dessa exposição ao agrotóxico, pode evitar que ela desenvolva a doença. Se ela continuar, ficar doente é questão de tempo", explicou. De acordo com o pesquisador, o uso de materiais de proteção, como luvas e máscaras, podem amenizar os efeitos da exposição de agrotóxicos.
A expectativa é que o Governo Federal utilize esses dados para pensar formas de reduzir os riscos dos trabalhadores em cenário semelhante. A pesquisa é patrocinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
OUTROS DETALHES – Os resultados do estudo serão detalhados na próxima segunda-feira (8), durante a defesa da dissertação do mestrando Luiz Ivando, intitulada "Estudo das alterações citogenômicas da medula óssea de trabalhadores rurais expostos a agrotóxicos". Será às 14h, no Auditório Paulo Marcelo (Campus do Porangabuçu). A apresentação é aberta ao público.
PARA APROFUNDAR clique nos textos abaixo:

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