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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Se não é seguro para Respirar ... seria seguro para COMER?




Um estudo realizado na Universidade de Aston – Inglaterra , procurou estudar o efeito isolado e o efeito combinado, sobre células de nosso sistema nervoso central, de três fungicidas encontrados com frequência nas prateleiras de hortifrúti: o pirimetanil, o ciprodinil e o fludioxonil.

Resultado: os danos infligidos às células são até vinte ou trinta vezes mais graves quando os pesticidas são associados. “Substâncias que são conhecidas por não afetarem a reprodução humana e o sistema nervoso e não serem cancerígenas, combinadas possuem efeitos inesperados”, resume um dos autores do estudo, o biólogo molecular Claude Reiss, ex-diretor de pesquisa do CNRS e presidente da associação Antidote Europe.

“Observamos o agravamento de três tipos de impactos”, detalha o pesquisador francês: “A viabilidade das células é degradada; as mitocôndrias, que são as ‘baterias’ das células, não conseguem mais alimentá-las com energia, o que desencadeia a apoptose, ou seja, a autodestruição das células; por fim, as células são submetidas a um stress oxidante muito poderoso, possivelmente cancerígeno e que pode levar a efeitos em cascata”.

Entre as possíveis consequências de tais agressões sobre as células, os pesquisadores citam o risco de uma vulnerabilidade crescente a doenças neurodegenerativas como o Mal de Alzheimer, de Parkinson ou a esclerose múltipla. “Nosso estudo aborda um pequeno número de substâncias, trazendo mais perguntas do que respostas, mas esses efeitos foram evidenciados em doses muito pequenas, concentrações próximas às encontradas em nossos alimentos”, observa o professor Coleman (EcoDebate 2012).

Mais informações:

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Governo gaúcho vai criar sistema para controlar uso de agrotóxicos



O governo do Rio Grande do Sul vai criar um sistema de rastreamento eletrônico para controlar o uso de agrotóxicos. A decisão foi anunciada após a revelação de que produtos proibidos no Brasil estão sendo usados em lavouras de arroz do estado, como mostra a reportagem do RBS Notícias (veja o vídeo).

A análise feita dentro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) encontrou doze tipos diferentes de agrotóxicos em 55 amostras de arroz. Três deles não têm autorização de uso para arroz no Brasil. O que representa um risco para a saúde tanto dos agricultores quanto das pessoas que consomem o alimento.

“Um trabalhador que ficou com a roupa impregnado com o produto está sujeito a um quadro clínico bastante grave, a ponto de ser levado a UTI com insuficiência respiratória”, diz a coordenadora do Centro de Informações Toxicológicas, Isabela Lucchese Gavioli.
A Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio (Seapa) diz que o contrabando de produtos químicos deve ser fiscalizado pela Polícia Federal e Pela Receita Federal. E que pretende aumentar o controle do uso de agrotóxicos com a contratação de mais agrônomos e um novo sistema eletrônico para o rastreamento dos produtos distribuídos no estado.

Vai estar dentro do sistema todos os produtos com suas dosagens e suas indicações. A receita agronômica só vai sair se o responsável técnico estiver habilitado e se a recomendação for correta”, explica o gerente da divisão de produção vegetal da Seapa, José Candido Motta.

Além do arroz, técnicos que fazem a coleta de amostras de alimentos para um programa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) encontraram irregularidades no uso de produtos químicos em vários produtos. A anvisa constatou problemas, principalmente no cultivo de pimentão (91,8%), morango (63,4%), pepino (57,4%) e alface (54,2%).

Entre as irregularidades estão a utilização de agrotóxicos não autorizados ou em quantidade acima da permitida. “É importante que a pessoa que está produzindo saiba que a sua produção, a sua propriedade rural, ela é responsável também por saúde pública. À medida que eu produzo observando as boas práticas de produção agrícola, eu vou estar trazendo benefícios para as pessoas que vão consumir o meu produto”, destaca o engenheiro de alimentos, Bruno Hoernig.


Fonte da Imagem: MPB Notícias


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal


Feliz Natal a todos e que a reflexão que esta data nos proporciona possa nos levar a um 2013 melhor, como no vídeo abaixo:

domingo, 23 de dezembro de 2012

Relatório inédito sobre as sérias implicações para o consumo humano de alimentos geneticamente modificados.

Relatório inédito sobre as sérias implicações para o consumo humano de alimentos geneticamente modificados.

Importante documentário para quem quer compreender as consequências dos transgênicos como a perda da biodiversidade alimentar, o domínio do mercado das sementes, a perda de autonomia dos produtores, prejuízos dos produtores que tiveram suas plantações contaminados por transgênicos de plantações vizinhas e os impactos ambientais e sociais.














Para saber mais:

Soja Transgênica - Sustentável? Responsável?

Alimentos transgênicos criam polêmica sobre efeitos à saúde e ao meio ambiente

Querem acabar com a rotulagem no Brasil

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ele denunciou irregularidades na aprovacao de agrotoxicos e foi exonerado

Revista do Idec
Luiz Cláudio Meirelles


Recentemente, um escândalo envolvendo irregularidades na liberação de agrotóxicos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) foi parar nos jornais. O inseticida Diamante BR, da Ourofino Agronegócios, usado na lavoura de cana-de-açúcar, e o fungicida Locker, da FMC Química do Brasil, usado no plantio de soja, chegaram ao mercado sem passar pela avaliação obrigatória da agência reguladora antes de o produto ser registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Além desses, mais cinco produtos foram considerados irregulares. O caso é grave, já que a Anvisa é a responsável por impedir que produtos perigosos à saúde humana sejam comercializados e, consequentemente, cheguem à mesa dos brasileiros.

O Idec tem acompanhado esse caso com atenção, já que o uso de agrotóxicos faz parte de sua pauta de trabalho. Para tentar entender melhor essa história, o Idec entrevistou uma peça-chave: o ex-gerente geral de toxicologia, Luiz Cláudio Meirelles, que denunciou irregularidades do órgão. Pouco tempo depois, ele foi exonerado do cargo de confiança que ocupou por quase 13 anos.

Em 20 de dezembro, ele volta a integrar a equipe da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), que o cedeu à Anvisa em 1999. Até lá, está de férias no Rio de Janeiro (RJ), de onde respondeu, por telefone, às perguntas do Idec

Pergunta: Você pode relatar o que aconteceu no caso de sua exoneração da Anvisa?
LUIZ CLÁUDIO MEIRELLES: Vou começar pelo final. A justificativa da Anvisa para a minha exoneração foi que eu não obedeci às regras para o encaminhamento das irregularidades que identifiquei e para o pedido de exoneração do gerente geral da Gavri (Gerência de Avaliação de Riscos), além do fato de o MPF (Ministério Público Federal) ter tomado conhecimento do caso antes de ele ter sido apurado. Eu discordei da justificativa, porque ela está muito aquém do que pode estar por trás disso tudo. Se eu perdi a confiança numa pessoa que é subordinada a mim, eu precisava tomar uma decisão. E, em relação ao MPF, eu não encaminhei nada a eles. Eu era um gestor técnico, detectei um problema, o documentei e encaminhei para os departamentos competentes, respeitando a hierarquia interna.

Posteriormente, a Anvisa me acusou de já ter conhecimento de que o gerente da Gavri era um problema. Eu refutei essa afirmação, porque ele gozava da minha confiança, assim como do supervisor, dos outros gerentes e do diretor. E assim que eu descobri coisas erradas, pedi que fosse exonerado. Mas fui surpreendido com a minha exoneração.

Irregularidades podem acontecer. O problema é usar o episódio para destruir o trabalho da gerência e desregulamentar o setor.

A reação à minha exoneração não foi só minha, envolveu mais gente, porque há algum tempo a gente vem levantando questões nessa área de agrotóxicos que estão sendo muito difíceis de conduzir. A proibição do metamidofós, por exemplo, gerou uma série de reações. Foram parlamentares cobrando da Anvisa e tentando derrubar a RDC (Resolução da Diretoria Colegiada) que proibiu a substância. Vinha sendo assim sistematicamente. Nós respondíamos várias coisas para garantir aquilo que é o nosso papel: retirar os produtos mais tóxicos do mercado e não dar registro para os que são perigosos. Mas a pressão vinha sendo muito grande.

Historicamente dentro da Anvisa, sempre fomos muito pressionados, o meu cargo sempre foi muito pedido por deputados. Teve um tempo em que a senadora Kátia Abreu [PSD-TO] foi para o Congresso falar mal da Anvisa. Nós entramos com representação contra ela, passamos por auditoria dentro da gerência. Mas continuamos tocando o trabalho como tem de ser. Implantamos um programa de resíduo que também foi muito combatido [PARA - Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos]. Não queriam que os dados fossem divulgados, pois isso causava problemas de produção. Então, ao longo dos anos, foi muita pressão. Acho que nos últimos dois anos houve um aumento de questionamento por parte da sociedade civil, levantamento junto à Câmara, filmes veiculados como "O Veneno Está na Mesa", do Sílvio Tendler. Isso também está relacionado a uma reação.

Outra fato é que se está fechando uma norma que pode apertar os critérios de avaliação e classificação toxicológica. Houve muita reação a essa norma, que é a revisão da Portaria 3. Se os critérios para definir se um produto causa câncer ou não forem muito flexíveis ou mais rígidos, isso poderá representar melhores ou piores resíduos na sua mesa. Resíduo melhor não tem, mas pode haver resíduos de produtos mais ou menos perigosos na sua dieta. Um ponto importante sobre a Anvisa precisa ser pensado: o cliente da Anvisa nunca foi a empresa, muito menos quem usa aquele produto na produção. É o consumidor quem tem de ser o cliente da instituição. Uma norma que fala de avaliação toxicológica de um produto é de interesse principalmente dos consumidores de alimentos porque essa norma interfere justamente nos critérios que definem se um produto é ou não carcinogênico (tem potencial cancerígeno). Se uma norma como essa é muito flexível, a nossa salada terá mais produtos que podem causar câncer, causar alterações embrionárias etc. Essa norma vinha sendo alvo de muita pressão.

Pergunta: Mais alguém de fora, além do MPF, sabia das denúncias?
LCM: Não sabia, mas, na medida em que eu fui apurando os fatos, cancelei o ato administrativo que colocava aqueles produtos no mercado, e isso também gerou indagações. E para as empresas que pediram audiência eu tive de informar que algumas irregularidades tinham sido encontradas e que elas estavam sendo encaminhadas para que a autoridade competente investigasse.

A razão de ser da Anvisa em relação aos agrotóxicos é fazer a avaliação toxicológica. Se um produto é liberado sem essa avaliação, é preciso cancelar o ato administrativo e começar tudo de novo. Por isso eu cancelei todos os produtos irregulares e comuniquei o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Isso gerou uma reação, principalmente de quem achava que estava tudo resolvido com o seu produto, só que não estava, porque o processo de liberação não tinha sido feito da maneira correta.

Pergunta: Dá para se ter uma ideia de quando essas irregularidades começaram a ocorrer e de quantos produtos estão envolvidos?
LCM: Eu identifiquei as primeiras irregularidades em meados de agosto, mas teve produto que foi liberado em dezembro do ano passado. A maior parte se concentrou no primeiro semestre deste ano. Foram sete produtos. Pode ser que uma auditoria mostre mais, mas não será uma busca fácil.

Pergunta: E você acha que vâo aparecer mais produtos?
LCM: Pode ser que sim. Espero que a avaliação descubra se existem outros para que o registro possa ser cancelado até que eles sejam regularizados. Não é algo que se descubra facilmente porque, às vezes, a documentação do produto está toda bonitinha. É preciso ver quem fez a nota técnica e se ela foi feita corretamente. Felizmente, nesse primeiro momento, encontramos um número pequeno de empresas e produtos irregulares se compararmos com o número total.

Pergunta: E você já havia solicitado, no passado, investigação sobre outras liberações irregulares?
LCM: Foi a primeira vez que eu detectei irregularidades em relação à avaliação toxicológica e a liberação de produtos formulados. Passamos por auditoria em 2008 e eu nunca desconfiei de que algo errado pudesse estar acontecendo. Esse é o tipo da coisa que você descobre de repente.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

sábado, 15 de dezembro de 2012

Entrevista com Susana Prizendt, coordenadora da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos no estado de São Paulo




Vivemos em um sistema que condena um enorme número de pessoas à falta de comida, à desnutrição, à fome e à morte”

Causa Operária entrevista Susana Prizendt, coordenadora da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos no estado de São Paulo, iniciativa da qual participam vários movimentos sociais

Causa Operária: Qual é o objetivo da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos?

Susana Prizendt: Em nome da Campanha, gostaria de agradecer a oportunidade oferecida pelo jornal Causa Operária, já que é muito difícil conseguirmos espaço na grande mídia e todo espaço aberto é importante para fomentar o debate com a sociedade. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida é uma iniciativa da qual fazem parte vários movimentos de diferentes áreas, porque o assunto é um tanto complexo. Nós temos entre nós pessoas ligadas aos direitos humanos, porque é um direito básico à alimentação segura da população que está em jogo; dos movimentos campesinos, que reivindicam melhores condições de trabalho no campo e um sistema de distribuição de terra mais justo; da área da saúde e da ciência, que podem fundamentar cientificamente o quanto os agrotóxicos fazem mal a saúde; e também pessoas ligadas aos movimentos ambientalistas porque o meio ambiente realmente está sendo extremamente exposto a danos. Queremos alertar a sociedade sobre a situação calamitosa no campo com o uso completamente abusivo dos agrotóxicos no cultivo.

Causa Operária: O Brasil se tornou tricampeão mundial em uso de agrotóxicos e vice-campeão mundial em plantio de transgênicos. Como isso aconteceu?

Susana Prizendt: Desde a crise [capitalista] de 2008, aconteceu um duplo movimento no mundo. Na maioria dos países desenvolvidos houve uma movimentação e cobrança maiores dos movimentos sociais que exigiram dos governos o endurecimento das leis contra os agrotóxicos e o uso de transgênicos. Vários países já têm leis que proíbem certos princípios ativos e fortes reivindicações para uma regulação mais rigorosa dos transgênicos.

No Brasil, as políticas públicas favorecem os agrotóxicos, que chegam a usufruir de isenção fiscal para comercialização. O governo exige que os agricultores apresentem nota fiscal de agrotóxicos, adubos químicos e sementes para liberar o financiamento público, estabelecendo, assim, a obrigação de comprar o pacote básico de produção imposto pelas multinacionais.

A bancada ruralista do Congresso, representante dos latifundiários, o setor mais retrógrado da sociedade, e das multinacionais, representa essa política e torna o governo refém dos seus interesses.

A partir de 2008 houve um grande deslocamento de capitais dos países desenvolvidos, onde a economia tinha entrado em colapso, para os mercados especulativos de commodities. A produção de matérias primas nos países emergentes e atrasados ficou muito interessante para a obtenção de altos lucros pelas multinacionais do setor do agronegócio. O Brasil tornou-se um lugar ideal para escoar a produção de venenos e sementes transgênicas.

Causa Operária: Alguns princípios ativos que são utilizados no Brasil já foram banidos em vários outros países. Por que isso está acontecendo?

Susana Prizendt: Muitos desses princípios foram banidos em outros países devido à organização mais sólida dos movimentos sociais e dos próprios consumidores. Aconteceu nos últimos tempos um enrijecimento das leis e das concessões, devido à comprovação dos seus malefícios e esses princípios acabaram sendo proibidos em países dos mais diversos tipos, desde a França até o Paraguai.

No Brasil não haviam acontecido ainda amplas mobilizações da sociedade contra as atividades depredadoras do agronegócio. Por isso a urgência da criação da Campanha. O Brasil está começando a acordar, embora muito tarde, para a gravidade da situação. Uma das principais bandeiras, como reinvindicação mínima em torno da qual esperamos agrupar os movimentos sociais, é que estes princípios ativos sejam proibidos no Brasil. Estamos promovendo um abaixo-assinado com o objetivo de pressionar o governo.

Causa Operária: Como funcionam as politicas públicas de incentivo ao uso dos agrotóxicos e transgênicos no Brasil?

Susana Prizendt: Temos um sistema que é muito cruel, pois as empresas, geralmente ligadas aos grandes grupos multinacionais, ficam apenas com a parte do favorecimento, como a isenção fiscal, ajuda para instalar sua rede de distribuição de venenos e outras facilidades para favorecer o domínio pleno do mercado brasileiro. Mas elas não respondem pelos problemas que geram, como os inúmeros problemas de saúde pública, que são cobertos com dinheiro público, sem contar os gravíssimos problemas ambientais, que praticamente são ignorados.

A lógica foi totalmente invertida. Estamos o tempo todo correndo atrás de reparações dos danos causados em vez de correr atrás de impedir que esses danos sejam gerados para a população e o meio ambiente.


Causa Operária: Como as multinacionais influenciam as politicas de incentivo de agrotóxicos e transgênicos?

Susana Prizendt: As multinacionais no Brasil têm uma associação muito forte com os grandes produtores brasileiros desde o final da década de 1990. O sistema político brasileiro está atrelado às multinacionais. Aqui, nós não temos um sistema público de financiamento das campanhas eleitorais; existe um sistema de financiamento privado que permite doações das grandes empresas. Para se eleger um deputado ou qualquer outro profissional para um cargo político, os partidos recorrem aos poderes econômicos com base nas multinacionais, o que torna a troca de favores algo natural. Isso acontece tanto no legislativo como no executivo. Temos a submissão destes políticos aos interesses das multinacionais e a legislação acaba sendo conivente com esses interesses.

Causa Operária: Quais foram as mudanças nas políticas implementadas pelos governos do PT em comparação com os governos do PSDB?

Susana Prizendt: A primeira coisa que acho importante reforçar é que os governos não são só do PSDB ou só do PT, eles são governos de coalisão. Tanto o PSDB, quando se aliou ao DEM, como o PT, que se aliou ao PL ou PMDB, ficaram sujeitos a setores super-reacionários, como por exemplo, os que representam o agronegócio. Incluindo aí os antigos coronéis que querem manter privilégios exorbitantes. Os representantes mais de esquerda, dos movimentos sociais, que reivindicam melhores condições tanto para os camponeses como para a população em geral, têm perdido muita força no governo devido a essas coalisões. Por isso é importante que a sociedade sempre se mobilize e cobre do governo as suas reinvindicações contra os interesses dos ruralistas e das multinacionais. Neste sentido, a atuação de movimentos como o MST, por exemplo, é importante para lutar por uma reforma agrária decente, como já foi feita em grande parte dos países desenvolvidos.

Causa Operária: Como os agrotóxicos estão afetando a nossa saúde e o meio ambiente?

Susana Prizendt: É uma vastidão de problemas que os agrotóxicos causam tanto na saúde do ser humano diretamente como no meio ambiente em geral.

Na saúde humana, entre os que já foram pesquisados, os mais conhecidos são os efeitos neurológicos que afetam a parte psíquica do ser humano, intensificando a ocorrência de transtornos variados que se têm agravados nos últimos anos. Também na parte endócrina, porque certas substancias mimetizam as substâncias dos hormônios. Elas acabam desregulando completamente o sistema hormonal, gerando problemas sérios. Mas o grande problema de saúde pública tem sido o aumento do câncer, que nos últimos anos tem se deslocado de alguns órgãos em que antes eram mais comuns, como por exemplo, o pulmão, para a parte digestiva como pâncreas, intestinos, tireoide, entre outros. O que está diretamente ligado à alimentação com volumes absurdos agrotóxicos.

No meio ambiente todas essas substâncias tóxicas não somem. Por exemplo, quando são usados aqueles aviões agrícolas para pulverizar lavouras, não se tem o menor controle de onde vão parar esses venenos. Eles são carregados pelo vento e pela água da chuva, penetrando no solo e atingindo o lençol freático, ou seja, se espalham por todo o planeta. Existe relato de venenos até nas geleiras. Então a partir do momento que essas substâncias entram no meio ambiente, o ser humano não tem mais controle sobre elas, sendo também ingeridas pelos animais selvagens.

No Brasil temos visto o uso crescente de veneno ao ponto de se chegar a um consumo de cerca de 1 bilhão de litros em um ano. É algo assustador. Se formos dividir isso por habitante, dá uma média de 5,2 litros de veneno para cada. Não que cada pessoa consuma diretamente isso, mas acaba entrando no meio ambiente e em nosso organismo.

Causa Operária: As pesquisas científicas sobre os agrotóxicos e transgênicos são confiáveis?

Susana Prizendt: Existem dois tipos de pesquisas. A maior parte delas é financiada ou autorizada pelas multinacionais, porque envolve a necessidade de usar os produtos registrados por estas empresas. Muitas vezes estão envolvidas leis sobre sigilo e royalties e é necessária uma autorização formal delas, que tentam autorizar apenas as pesquisas que possam controlar e manipular.

As pesquisas independentes são muito boicotadas e raras. É muito mais difícil divulgar os resultados e fazer com que sejam aceitas, pois as multinacionais montam campanhas enormes contra. Normalmente não há recursos destinados para estas pesquisas.

O patrocínio das multinacionais busca resultados favoráveis, pois está obviamente vinculado à venda dos produtos que oferecem.

Causa Operária: No Brasil, há pesquisas independentes das multinacionais?

Susana Prizendt: Por serem pesquisas caras e longas, que exigem equipamentos sofisticados, laboratórios, equipes de trabalho qualificadas etc., ocorrem em número insuficiente no Brasil e não dão conta do volume de testes e estudos que realmente deveriam ser feitos, pois os efeitos são muito variados e há muitos princípios ativos envolvidos. Inclusive, não há estudos que mostrem a relação entre os princípios ativos entre si. Não se sabe o que a interação entre eles pode causar. Além de o setor ser pequeno e com poucos recursos, as multinacionais tentam inviabilizá-lo, principalmente por meio de ataques jurídicos, engessando e processando quem tenta fazer algum tipo de pesquisa independente, ou tentando intimidar os cientistas.



Causa Operária: Existe um mito de que para alimentar a população mundial é necessário produzir com veneno. Ouvimos a senadora ruralista Katia Abreu defender que “pobre tem que comer comida envenenada”. É possível produzir alimentos suficientes sem o uso de agrotóxicos e transgênicos?

Susana Prizendt: A Campanha sempre está mostrando para as pessoas que na verdade acontece o inverso. Se insistirmos nesse sistema produtivo baseado na monocultura, no uso crescente de venenos e transgênicos, na concentração de terra, nós não vamos conseguir alimentar mesmo a humanidade, como, de fato, hoje já não se consegue.

O modelo monocultor enfraquece a terra, gera super pragas resistentes nunca vistas antes. É um sistema que simplesmente produz commodities que são negociadas nos mercados futuros para especulação. Não é um sistema que está preocupado em produzir comida.

Atualmente, a comida está sendo produzida pela agricultura familiar, em condições precárias e quase sem apoio do poder público. Somente será possível alimentar tanto a população atual como a futura se os investimentos forem direcionados para produção de alimentos nutritivos e não para alimentar os lucros de um punhado de especuladores.

Escutamos os representantes do agronegócio falando em produtividade, mas ela se resume nas toneladas de soja, de cana de açúcar e de milho. Isso vai perpetuando um sistema que não é sustentável porque mesmo que se diga que a soja é usada para alimentar animais que serão futuramente comida para os seres humanos, a quantidade de terra necessária para produzir soja para alimentar esse gado poderia estar produzindo muito mais comida para muito mais pessoas, sem provocar tantas doenças nem depredar o meio ambiente, como ocorre nas monoculturas repletas de veneno.

Segundo a ONU [Organização das Nações Unidas], mais de um bilhão de pessoas passam fome no mundo. O que demonstra que a distribuição de alimentos é desigual. Em relação à distribuição de carne, se olharmos o mapa do mundo, não são todos os países que a consomem em quantidade. Apenas uma minoria consome carne habitualmente.

Considerando o transporte, quando pensamos num sistema que é montando para produzir etanol através do milho ou da cana, esse sistema está usando terras que poderiam estar sendo usadas para a produção de alimentos. E quem está usando esse etanol? Bilhões de pessoas no mundo ainda não têm o seu próprio carro e nem irão tê-lo porque o planeta não suportaria o impacto. Quer dizer que vivemos num sistema elitista, que mantém privilégios para uma minoria e que condena, cada vez mais, um enorme número de pessoas à falta de comida, à desnutrição, à fome e à morte. É um sistema assassino. Além de tudo isso, não fazemos a menor ideia do que ele irá acarretar de problemas ambientais, com as mudanças climáticas e com a diminuição da biodiversidade através dos transgênicos e dos venenos promovidos pela monocultura.

O desiquilíbrio ambiental já está sendo violento e não sabemos nem mesmo se será possível produzir as próprias espécies transgênicas, como vimos recentemente na quebra da safra do milho e da soja transgênicos nos EUA que não resistiram à pior seca dos últimos 50 anos.

Causa Operária: Quais seriam as alternativas às políticas que incentivam o modelo de monocultura devastador?

Susana Prizendt: Seria necessário que houvesse uma inversão. Hoje em dia a mão de obra não é formada para atuar fora do modelo devastador. Não temos agrônomos preparados para trabalhar com a terra. Eles não sabem produzir de maneira orgânica. Se você simplesmente tirar os agrotóxicos do processo, isso não basta para a realização do equilíbrio necessário para uma produção orgânica. A produção orgânica é aquela que realmente entende a terra, que sabe quando a terra está equilibrada, que sabe intercalar as culturas, que trabalha com o ecossistema, com o clima local.

Seria necessário que as políticas públicas estivessem direcionadas a investir na formação técnica independente dos interesses das multinacionais e dos latifundiários. Os camponeses precisam de assessoria técnica, equipamentos, boas terras e financiamento. A agroecologia quase não tem financiamento. No Brasil, o governo investe bilhões na agricultura depredadora de exportação que transforma o País num mero produtor de umas poucas matérias primas. Em resumo, o governo investe em uma agricultura que não busca produzir alimentos para o povo brasileiro e sim para o mercado especulativo, e esse dinheiro vai parar na mão de uma minoria que seria a elite da elite. Ou seja eles ficam com o lucro e socializam o prejuízo com a população. Nós buscamos mobilizar a sociedade para se opor a essas políticas.

Causa Operária: Você gostaria de acrescentar algo mais?

Susana Prizendt: Eu gostaria de convidar as pessoas para terem um envolvimento maior com a Campanha. Temos comitês distribuídos no País inteiro. É uma campanha nacional, composta por movimentos como o MST, FioCruz, Via Campesina e Abrasco. A questão é urgente, não dá para adiar mais. As consequências já são terríveis e vão ser cada vez piores. Principalmente porque a tendência é o aumento da concentração de capitais nos países emergentes devido ao aumento da crise nos países mais ricos. Convidamos as pessoas a conhecerem nosso site, toxicos.org. Ele conta com muitas informações sobre o assunto. Sempre estamos preparando materiais informativos para esclarecer a população sobre o tema. Coisa que a grande mídia não faz e que é vital para garantir o direito à alimentação segura e ao ambiente preservado.

Fonte: Eco Debate

Veja também:




VÍDEO COLABORATIVO DA CAMPANHA CONTRA OS AGROTOXICOS E PELA VIDA from susana on Vimeo.

Para aprofundar:
O VENENO NOSSO DE CADA DIA